A hora da estrela (PT. 3)

Ele...

Ele se aproximou e com a voz cantante de nordestino que a emocionou,

perguntou-lhe:

– E se me desculpe, senhorita, posso convidar a passear?

– Sim, respondeu atabalhoadamente com a pressa antes que ele mudasse de

idéia.

– E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?

– Macabéa.

– Maca -- o quê?

– Bea, foi ela obrigada a completar.

– Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.

– Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa

Senhora da Boa Morte se vingasse, até um ano de idade eu não era chamada não tinha

nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém

tem mas parece que deu certo - parou um instante retomando o fôlego perdido e

acrescentou desanimada e com pudor - pois como o senhor vê eu vinguei... pois é...

– Também no sertão da Paraíba promessa é questão de grande dívida de honra.

Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante

da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas,

parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma

ruptura, disse

ao recém-namorado:

– Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os

ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara de

Macabéa parecia lágrimas escorrendo.

Da terceira vez em que se encontraram - pois não é que estava chovendo? - o

rapaz, irritado e perdendo o leve verniz de finura que o padrasto a custo lhe ensinara,

disse-lhe:

– Você também só sabe é mesmo chover!

– Desculpe.

Mas ela já o amava tanto que não sabia mais como se livrar dele, estava em

desespero de amor.

Numa das vezes em que se encontraram ela afinal perguntou-lhe o nome.

– Olímpico de Jesus Moreira Chaves - mentiu ele porque tinha como sobrenome

apenas o de Jesus, sobrenome dos que têm pai. Fora criado por um padrasto que lhe

ensinara o modo fino de tratar pessoas para se aproveitar delas e lhe ensinara como

pegar mulher.

– Eu não entendo o seu nome - disse ela. - Olímpico? Macabéa fingia enorme

curiosidade escondendo dele que ela nunca entendia tudo muito bem e que isso era

assim mesmo. Mas ele, galinho de briga que era, arrepiou-se todo com a pergunta tola e

que ele não sabia responder. Disse aborrecido:

– Eu sei mas não quero dizer!

– Não faz mal, não faz mal, não faz mal... a gente não precisa entender o nome.

Ela sabia o que era o desejo - embora não soubesse que sabia. Era assim: ficava

faminta mas não de comida, era um gosto meio doloroso que subia do baixo-ventre e

arrepiava o bico dos seios e os braços vazios sem abraço. Tornava-se toda dramática e Olímpico de Jesus trabalhava de operário numa metalúrgica e ela nem notou que

ele não se chamava de "operário" e sim de "metalúrgico". Macabéa ficava contente com a

posição social dele porque também tinha orgulho de ser datilógrafa, embora ganhasse

menos que o salário mínimo. Mas ela e Olímpico eram alguém no mundo. "Metalúrgico e

datilógrafa" formavam um casal de classe. A tarefa de Olímpico tinha o gosto que se sente

quando se fuma um cigarro acendendo-o do lado errado, na ponta da cortiça. O trabalho

consistia em pegar barras de metal que vinham deslizando de cima da máquina para

colocá-las embaixo, sobre uma placa deslizante. Nunca se perguntara por que colocava a

barra embaixo. A vida não lhe era má e ele até economizava um pouco de dinheiro:

dormia de graça numa guarita em obras de demolição por camaradagem do vigia.

Macabéa disse:

– As boas maneiras são a melhor herança.

– Pois para mim a melhor herança é mesmo muito dinheiro. Mas um dia vou ser

muito rico disse ele que tinha uma grandeza demoníaca: a sua força sangrava.

Uma coisa que tinha vontade de ser era toureiro. Uma vez fora ao cinema e

estremecera da cabeça aos pés quando vira a capa vermelha. Não tinha pena do touro.

Gostava era de ver sangue.

No Nordeste tinha juntado salários e salários para arrancar um canino perfeito e

trocá-lo por um dente de ouro faiscante. Este dente lhe dava posição na vida. Aliás, matar

tinha feito dele homem com letra maiúscula. Olímpico não tinha vergonha, era o que se

chamava no Nordeste de "cabra safado". Mas não sabia que era um artista: nas horas de

folga esculpia figuras de santo e eram tão bonitas que ele não as vendia. Todos os

detalhes ele punha e, sem faltar ao respeito, esculpia tudo do Menino Jesus. Ele achava

que o que é, é mesmo, e Cristo tinha sido além de santo um homem como ele, embora

sem dente de ouro.

Os negócios públicos interessavam Olímpico. Ele adorava ouvir discursos. Que

tinha seus pensamentos, isso lá tinha. Acocorava-se com o cigarro barato nas mãos e

pensava. Como na Paraíba ele se acocorava no chão, o traseiro sentado no zero, a

meditar. Ele dizia alto e sozinho:

– Sou muito inteligente, ainda vou ser deputado.

E não é que ele dava para fazer discurso? Tinha o tom cantado e o palavreado

seboso, próprio para quem abre a boca e fala pedindo e ordenando os direitos do

homem. No futuro, que eu não digo nesta história, não é que ele terminou mesmo

deputado? E obrigando os outros a chamarem-no de doutor.

Macabéa era na verdade uma figura medieval enquanto Olímpico de Jesus se

julgava peça-chave, dessas que abrem qualquer porta. Macabéa simplesmente não era

técnica, ela era só ela. Não, não quero ter sentimentalismo e portanto vou cortar o coitado

implícito dessa moça. Mas tenho que anotar que Macabéa nunca recebera uma carta em

sua vida e o telefone do escritório só chamava o chefe e Glória. Ela uma vez pediu a

Olímpico que lhe telefonasse. Ele disse:

– Telefonar para ouvir as tuas bobagens?

Quando Olímpico lhe dissera que terminaria deputado pelo Estado da Paraíba,. ela

ficou boquiaberta e pensou: quando nos casarmos então serei uma deputada? Não

queria, pois deputada parecia nome feio. (Como eu disse, essa não é uma história de

pensamentos. Depois provavelmente voltarei para as inominadas sensações, até

sensações de Deus. Mas a história de Macabéa tem que sair senão eu estouro.)

As poucas conversas entre os namorados versavam sobre farinha, carne-de-sol,

carne-seca, rapadura, melado. Pois esse era o passado de ambos e eles esqueciam o

amargor da infância porque esta, já que passou, é sempre acre-doce e dá até nostalgia.

Pareciam por demais irmãos, coisa que - só agora estou percebendo - não dá para casar.

Mas eu não sei se eles sabiam disso. Casariam ou não? Ainda não sei, só sei que eram

de algum modo inocentes e pouca sombra faziam no chão.

Não, menti, agora vi tudo: ele não era inocente coisa alguma, apesar de ser uma

18 vítima geral do mundo. Tinha, descobri agora, dentro de si a dura semente do mal,

gostava de se vingar, este era o seu grande prazer e o que lhe dava força de vida. Mais

do que ela que não tinha anjo da guarda.

Enfim o que fosse acontecer, aconteceria. E por enquanto nada acontecia, os dois

não sabiam inventar acontecimentos. Sentavam-se no que é de graça: banco de praça

pública. E ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada. Para a grande glória de

Deus.

Ele: – Pois é.

Ela: – Pois é o quê?

Ele: – Eu só disse pois é!

Ela: – Mas "pois é" o quê?

Ele: – Melhor mudar de conversa porque você não me entende.

Ela: – Entender o quê?

Ele: – Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já!

Ela: – Falar então de quê?

Ele: – Por exemplo, de você.

Ela: – Eu?!

Ele: – Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente.

Ela: – Desculpe mas não acho que sou muito gente.

Ele: – Mas todo mundo é gente, meu Deus!

Ela: – É que não me habituei.

Ele: – Não se habituou com quê?

Ela: – Ah, não sei explicar.

Ele: – E então?

Ela: – Então o quê?

Ele: – Olhe, eu vou embora porque você é impossível!

Ela: – É que só sei ser impossível, não sei mais nada. Que é que eu faço para

conseguir ser possível?

Ele: – Pare de falar porque você só diz besteira! Diga o que é do teu agrado.

Ela: – Acho que não sei dizer.

Ele: – Não sabe o quê?

Ela: – Hein?

Ele: – Olhe, até estou suspirando de agonia. Vamos não falar em nada, está bem?

Ela: – Sim, está bem, como você quiser.

Ele: – É, você não tem solução. Quanto a mim, de tanto me chamarem, eu virei eu.

No sertão da Paraíba não há quem não saiba quem é Olímpico. E um dia o

mundo todo vai saber de mim.

– É?

– Pois se eu estou dizendo! Você não acredita?

– Acredito sim, acredito, acredito, não quero lhe ofender.

Em pequena ela vira uma casa pintada de rosa e branco com um quintal onde

havia um poço com cacimba e tudo. Era bom olhar para dentro. Então seu ideal se

transformara nisso: em vir a ter um poço só para ela. Mas não sabia como fazer e então

perguntou a Olímpico:

– Você sabe se a gente pode comprar um buraco?

– Olhe, você não reparou até agora, não desconfiou que tudo que você pergunta

não tem resposta?

Ela ficou de cabeça inclinada para o ombro assim como uma pomba fica triste.

Quando ele falava em ficar rico, uma vez ela lhe disse:

– Não será somente visão?

– Vá para o inferno, você só sabe desconfiar. Eu só não digo palavrões grossos

porque você é moça-donzela.

– Cuidado com suas preocupações, dizem que dá ferida no estômago.

– Preocupações coisa nenhuma, pois eu sei no certo que vou vencer. Bem, e você

19 tem preocupações?

– Não, não tenho nenhuma. Acho que não preciso vencer na vida.

Foi a única vez em que falou de si própria para Olímpico de Jesus. Estava

habituada a se esquecer de si mesma. Nunca quebrava seus hábitos, tinha medo de

inventar.

– Você sabia que na Rádio Relógio disseram que um homem escreveu um livro

chamado "Alice no País das Maravilhas" e que era também um matemático? Falaram

também em "élgebra". O que é que quer dizer "élgebra"?

– Saber disso é coisa de fresco, de homem que vira mulher. Desculpe a palavra de

eu ter dito fresco porque isso é palavrão para moça direita.

– Nessa rádio eles dizem essa coisa de "cultura" e palavras difíceis, por exemplo: o

que quer dizer "eletrônico"?

Silêncio.

– Eu sei mas não quero dizer.

– Eu gosto tanto de ouvir os pingos de minutos do tempo assim: tic-tac-tic-tac-tic. A

rádio Relógio diz que dá a hora certa, cultura e anúncios. Que quer dizer cultura?

– Cultura é cultura - continuou ele emburrado. Você também vive me encostando

na parede.

– É que muita coisa eu não entendo bem. O que quer dizer "renda per capita"?

– Ora, é fácil, é coisa de médico.

– O que dizer rua Conde de Bonfim? O que é que conde? É príncipe?

Não contou que o roubara no mictório da fábrica: o colega o tinha deixado na pia

quando lavara as mãos. Ninguém soube, ele era um verdadeiro técnico em roubar: não

usava o relógio de pulso no trabalho.

– Sabe o que mais eu aprendi? Eles disseram que se devia ter alegria de viver.

Então eu tenho. Eu também ouvi uma música linda, eu até chorei.

– Era samba?

– Acho que era. E cantada por um homem chamado Caruso que se diz que já

morreu. A voz era tão macia que até doía ouvir. A música chamava-se "Una Furtiva

Lacrima". Não sei por que eles não disseram lágrima.

"Una Furtiva Lacrima" fora a única coisa belíssima na sua vida. Enxugando as

próprias lágrimas tentou cantar o que ouvira. Mas a sua voz era crua e tão desafinada

como ela mesma era. Quando ouviu começara chorar. Era a primeira vez que chorava,

não sabia que tinha tanta água nos olhos. Chorava, assoava o nariz sem saber mais por

que chorava. Não chorava por causa da vida que levava: porque, não tendo conhecido

outros modos de viver, aceitara que com ela era "assim". Mas também creio que chorava

porque, através da música, adivinhava talvez que havia outros modos de sentir, havia

existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma. Muitas coisas sabia que não

sabia entender. "Aristocracia" significaria por acaso uma graça concedida?

Provavelmente. Se é assim, que assim seja. O mergulho na vastidão do mundo musical

que não carecia de se entender. Seu coração disparara. E junto de Olímpico ficou de

repente corajosa e arrojando-se no desconhecido de si mesma disse:

– Eu acho que até sei cantar essa música. Lá-lá-lá-lá-lá.

– Você até parece uma muda cantando. Voz de cana rachada.

– Deve ser porque é a primeira vez que canto na vida.

Ela achava que "lacrima" em vez de lágrima era erro do homem da rádio. Nunca

lhe ocorrera a existência de outra língua e pensava que no Brasil se falava brasileiro.

Além dos cargueiros do mar nos domingos, só tinha essa música. O substrato último da

música era a sua única vibração.

E o namoro continuava ralo. Ele:

– Depois que minha santa mãe morreu, nada mais me prendia na Paraíba.

– De que é que ela morreu?

– De nada. Acabou-se a saúde dela.

Ele falava coisas grandes mas ela prestava atenção nas coisas insignificantes

20 como ela própria. Assim registrou um portão enferrujado, retorcido, rangente e

descascado que abria o caminho para uma série de casinhas iguais de vila. Vira isso do

ônibus. A vila além do número 106 tinha uma plaqueta onde estava escrito o nome das

casas. Chamava-se “Nascer do Sol”. Bonito o nome que também augurava coisas boas.

Ela achava Olímpico muito sabedor das coisas. Ele dizia o que ela nunca tinha

ouvido. Uma vez ele falou assim:

– A cara é mais importante do que o corpo porque a cara mostra o que a pessoa

está sentindo. Você tem cara de quem comeu e não gostou, não aprecio cara triste, vê se

muda – e disse uma palavra difícil – vê se muda de “expressão”.

Ela disse consternada:

– Não sei como se faz outra cara. Mas é só na cara que sou triste porque por

dentro eu só até alegre. É tão bom viver, não é?

– Claro! Mas viver bem é coisa de privilegiado. Eu sou um e você me vê magro e

pequeno mas sou forte, eu com um braço posso levantar você do chão. Quer ver?

– Não, não, os outros olham e vão maldar!

– Magricela esquisita ninguém olha.

E lá foram para a esquina. Macabéa estava muito feliz. Realmente ele a levantou

para o ar, acima da própria cabeça. Ela disse eufórica:

– Deve ser assim viajar de avião.

É. Mas de repente ele não agüentou o peso num só braço e ela caiu de cara na

lama, o nariz sangrando. Mas era delicada e foi logo dizendo:

– Não se incomode, foi uma queda pequena.

Como não tinha lenço para limpar a lama e o sangue, enxugou o rosto com a saia,

dizendo:

– Você não olhe enquanto eu estiver me limpando, por favor, porque é proibido

levantar a saia.

Mas ele emburrara de vez e não disse mais nenhuma palavra. Passou vários dias

sem procurá-la: seu brio fora atingido.

Afinal terminou por voltar para ela. Por motivos diferentes entraram num açougue.

Para ela o cheiro da carne crua era um perfume que a levitava toda como ,se tivesse

comido. Quanto a ele, o que queria ver era o açougueiro e sua faca amolada. Tinha

inveja do açougueiro e também queria ser. Meter a faca na carne o excitava. Ambos

saíram do açougue satisfeitos. Embora ela se perguntasse: que gosto terá esta carne? E

ele se perguntava: como é que uma pessoa consegue ser açougueiro? Qual era o

segredo? (O pai de Glória trabalhava num açougue belíssimo.) Ela disse:

– Eu vou ter tanta saudade de mim quando morrer.

– Besteira, morre-se e morre-se de uma vez.

– Não foi o que minha tia me ensinou.

– Que tua tia se dane.

– Sabe o que eu mais queria na vida? Pois era ser artista de cinema. Só vou ao

cinema no dia em que o chefe me paga. Eu escolho cinema poeira, sai mais barato.

Adoro as artistas. Sabe que Marylin era toda cor-de-rosa?

– E você tem cor de suja. Nem tem rosto nem corpo para ser artista de cinema.

– Você acha mesmo?

– Tá na cara.

– Não gosto de ver sangue no cinema. Olhe, sangue eu não posso mesmo ver

porque me dá vontade de vomitar.

– Vomitar ou chorar?

– Até hoje com a graça de Deus nunca vomitei.

– É, dessa vaca não sai leite.

Pensar era tão difícil, ela não sabia de que jeito se pensava. Mas Olímpico não só

pensava como usava palavreado fino. Nunca esqueceria que no primeiro encontro ele a

chamara de "senhorinha", ele fizera dela um alguém. Como era um alguém, comprou um

batom cor-de-rosa. O seu diálogo era sempre oco. Dava-se conta longinquamente de que

21 nunca dissera uma palavra verdadeira. E "amor" ela não chamava de amor, chamava de

não-sei-o-quê.

– Olhe, Macabéa...

– Olhe o quê?

– Não, meu Deus, não é "olhe' de ver, é "olhe" como quando se quer que uma

pessoa escute! Está me escutando?

– Tudinho, tudinho!

– Tudinho o quê, meu Deus, pois se eu ainda não falei! Pois olhe vou lhe pagar um

cafezinho no botequim. Quer?

– Pode ser pingado com leite?

– Pode, é o mesmo preço, se for mais, o resto você paga.

Macabéa não dava nenhuma despesa a Olímpico. Só dessa vez quando lhe pagou

um cafezinho pingado que ela encheu de açúcar quase a ponto de vomitar mas controlou-

se para não fazer vergonha. O açúcar ela botou muito para aproveitar.

E uma vez os dois foram ao Jardim Zoológico, ela pagando a própria entrada. Teve

muito espanto ao ver os bichos. Tinha medo e não os entendia: por que viviam? Mas

quando viu a massa compacta, grossa, preta e roliça do rinoceronte que se movia em

câmara lenta, teve tanto medo que se mijou toda. O rinoceronte lhe pareceu um erro de

Deus, que me perdoe por favor, sim? Mas não pensara em Deus nenhum, era apenas um

modo de. Com a graça de alguma divindade Olímpico nada percebeu e ela disse a ele:

– Estou molhada porque me sentei no banco molhado. E ele nada percebeu. Ela

rezou automaticamente em agradecimento. Não era agradecimento a Deus, só estava

repetindo o que aprendera na infância.

– A girafa é tão elegante, não é?

– Besteira, bicho não é elegante.

Ela teve inveja da girafa que pairava tão longe no ar. Tendo visto que seus

comentários sobre bichos não agradavam Olímpico, procurou outro assunto:

– Na Rádio Relógio disseram uma palavra que achei meio esquisita: mimetismo.

Olímpico olhou-a desconfiado:

– Isso é lá coisa para moça virgem falar? E para que serve saber demais? O

Mangue está cheio de raparigas que fizeram perguntas demais.

– Mangue é um bairro?

– É lugar ruim, só pra homem ir. Você não vai entender mas eu vou lhe dizer uma

coisa: ainda se encontra mulher barata. Você me custou pouco, um cafezinho. Não vou

gastar mais nada com você, está bem?

Ela pensou: eu não mereço que ele me pague nada porque me mijei.

Depois da chuva do Jardim Zoológico, Olímpico não foi mais o mesmo:

desembestara. E sem notar que ele próprio era de poucas palavras como convém a um

homem sério, disse-lhe:

– Mas puxa vida! Você não abre o bico e nem tem assunto!

Então aflita ela lhe disse:

– Olhe, o Imperador Carlos Magno era chamado na terra dele de Carolus! E você

sabia que a mosca voa tão depressa que se voasse em linha reta ela ia passar pelo

mundo todo em 28 dias?

– Isso é mentira!

– Não é não, juro pela minha alma pura que aprendi isso na Rádio Relógio!

– Pois não acredito.

– Quero cair morta neste instante se estou mentindo. Quero que meu pai e minha

mãe fiquem no inferno, se estou lhe enganando.

– Vai ver que cai mesmo morta. Escuta aqui: você está fingindo que é idiota ou é

idiota mesmo?

– Não sei bem o que sou, me acho um pouco... de quê? ...Quer dizer não sei bem

quem eu sou.

– Mas você sabe que se chama Macabéa, pelo menos isso?

22 – É verdade. Mas não sei o que está dentro do meu nome. Só sei que eu nunca fui

importante...

– Pois fique sabendo que meu nome ainda será escrito nos jornais e sabido por

todo o mundo.

Ela disse para Olímpico:

– Sabe que na minha rua tem um galo que canta?

– Por que é que você mente tanto?

– Juro, quero ver minha mãe cair morta se não é verdade!

– Mas sua mãe já não morreu?

– Ah, é mesmo... que coisa...

(Mas e eu? E eu que estou contando esta história que nunca me aconteceu e nem

a ninguém que eu conheça? Fico abismado por saber tanto a verdade. Será que o meu

ofício doloroso é o de adivinhar na carne a verdade que ninguém quer enxergar? Se sei

quase tudo de Macabéa é que já peguei uma vez de relance o olhar de uma nordestina

amarelada. Esse relance me deu ela de corpo inteiro. Quanto ao paraibano, na certa

devo ter-lhe fotografado mentalmente a cara - e quando se presta atenção espontânea e

virgem de imposições, quando se presta atenção a cara diz quase tudo.)

E agora apago-me de novo e volto para essas duas pessoas que por força das

circunstancias eram seres meio abstratos.

Mas ainda não expliquei bem Olímpico. Vinha do sertão da Paraíba e tinha uma

resistência que provinha da paixão por sua terra braba e rachada pela seca. Trouxera

consigo, comprada no mercado da Paraíba, uma lata de vaselina perfumada e um pente,

como posse sua e exclusiva. Besuntava o cabelo preto até encharcá-lo. Não desconfiava

que as cariocas tinham nojo daquela meladeira gordurosa. Nascera crestado e duro que

nem galho seco de árvore ou pedra ao sol. Era mais passível de salvação que Macabéa

pois não fora à toa que matara um homem, desafeto seu, nos cafundós do sertão, o

canivete comprido entrando mole-mole no fígado macio do sertanejo. Guardava disso

segredo absoluto, o que lhe dava a força que um segredo dá. Olímpico era macho de

briga. Mas fraquejava em relação a enterros: às vezes ia, três vezes por semana a enterro

de desconhecidos, cujos anúncios saíam nos jornais e sobretudo no O dia: e seus olhos

ficavam cheios de lágrimas. Era uma fraqueza, mas quem não tem a sua. Semana em que

não havia enterro, era semana vazia desse homem que, se era doido, sabia muito bem o

que queria. De modo que não era doido coisa alguma. Macabéa, ao contrário de Olímpico,

era fruto do cruzamento de "o quê" com "o quê". Na verdade ela parecia ter nascido de

uma idéia vaga qualquer dos pais famintos. Olímpico pelo menos roubava sempre que

podia e até do vigia de obras onde era sua dormida. Ter matado e roubar faziam com que

ele não fosse um simples acontecido qualquer, davam-lhe uma categoria, faziam dele um

homem com honra até lavada. Ele também se salvava mais do que Macabéa porque tinha

grande talento para desenhar rapidamente perfeitas caricaturas ridículas dos retratos de

poderosos nos jornais. Era a sua vingança. Sua única bondade com Macabéa foi dizer-lhe

que arranjaria para ela emprego na metalúrgica quando fosse despedida. Para ela a

promessa fora um escândalo de alegria (explosão) porque na metalúrgica encontraria a

sua única conexão atual com o mundo: o próprio Olímpico. Mas Macabéa de um modo

geral não se preocupava com o próprio futuro: ter futuro era luxo. Ouvira na Rádio Relógio

que havia sete bilhões de pessoas no mundo. Ela se sentia perdida. Mas com a tendência

que tinha para ser feliz logo se consolou: havia sete bilhões de pessoas para ajudá-la.

Macabéa gostava de filme de terror ou de musicais, Tinha predileção por mulher

enforcada ou que levava um tiro no coração. Não sabia que ela própria era uma suicida

embora nunca lhe tivesse ocorrido se matar. É que a vida lhe era tão insossa que nem

pão velho sem manteiga. Enquanto Olímpico era um diabo premiado e vital e dele

nasceriam filhos, ele tinha o precioso sêmen. E como já foi dito ou não foi dito Macabéa

tinha ovários murchos como um cogumelo cozido. Ah pudesse eu pegar Macabéa, dar-

lhe um bom banho, um prato de sopa um beijo na testa enquanto a cobria com um

cobertor. E fazer que quando ela acordasse encontrasse simplesmente o grande luxo de

23 viver.

Olímpico na verdade não mostrava satisfação nenhuma em namorar Macabéa - é o

que eu descubro agora. Olímpico talvez visse que Macabéa não tinha força de raça, era

subproduto. Mas quando ele viu a colega da Macabéa, sentiu logo que ela tinha classe.

Glória possuía no sangue um bom vinho português e também era amaneirada no

bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido. Apesar de branca, tinha

em si a força da mulatice. Oxigenava em amarelo-ovo os cabelos crespos cujas raízes

estavam sempre pretas. Mas mesmo oxigenada ela era loura, o que significava um degrau

a mais para Olímpico. Além de ter uma grande vantagem que nordestino não podia

desprezar. É que Glória lhe dissera, quando lhe fora apresentada por Macabéa: "sou

carioca da gema!" Olímpico não entendeu o que significava "da gema" pois esta era uma

gíria ainda do tempo de juventude do pai de Glória. O fato de ser carioca tornava-a

pertencente ao ambicionado clã do sul do país. Vendo-a, ele logo adivinhou que, apesar

de feia, Glória era bem alimentada. E isso fazia dela material de boa qualidade.

Enquanto isso o namoro com Macabéa entrara em rotina morna, se é que alguma

vez haviam experimentado o quente. Muitas vezes ele não aparecia no ponto do ônibus.

Mas pelo menos era um namorado. E Macabéa só pensava no dia em que ele quisesse

ficar noivo. E casar.

Posteriormente de pesquisa em pesquisa, ele soube, que Glória tinha mãe, pai é

comida quente em hora certa. Isso tornava-a de primeira qualidade Olímpico caiu em

êxtase quando soube que o pai dela trabalhava num açougue.

Pelos quadris adivinhava-se que seria boa parideira. Enquanto Macabéa lhe

pareceu ter em si mesma o seu próprio fim.

Esqueci de dizer que era realmente de se espantar que para corpo quase murcho

de Macabéa tão vasto fosse o seu sopro de vida quase ilimitado e tão rico como o de

uma donzela grávida, engravidada por si mesma, por partenogênese: tinha sonhos

esquizóides nos quais apareciam gigantescos animais antediluvianos como se ela tivesse

vivido em épocas as mais remotas desta terra sangrenta.

Foi então (explosão) que se desmanchou de repente o namoro entre Olímpico e

Macabéa. Namoro talvez esquisito mas pelo menos parente de algum amor pálido. Ele

avisou-lhe que encontrara outra moça é que esta era Glória. (Explosão) Macabéa bem viu

o que aconteceu com Olímpico e Glória: os olhos de ambos se haviam beijado.

Diante da cara um pouco inexpressiva demais de Macabéa, ele até que quis lhe

dizer alguma gentileza suavizante na hora do adeus para sempre. E ao se despedir lhe

disse:

– Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe

se eu lhe ofendi, mas sou sincero. Você está ofendida?

– Não, não, não! Ah por favor quero ir embora! Por favor me diga logo adeus!

É melhor eu não falar em felicidade ou infelicidade - provoca aquela saudade

desmaiada e lilás, aquele perfume de violeta, as águas geladas da maré mansa em

espumas pela areia. Eu não quero provocar porque dói.

Macabéa, esqueci de dizer tinha uma infelicidade: era sensual. Como é que num

corpo cariado como o dela cabia tanta lascívia, sem que ela soubesse que tinha?

Mistério. Havia, no começo do namoro, pedido a Olímpico um retratinho tamanho 3x4

onde ele saiu rindo para mostrar o canino de ouro e ela ficava tão excitada que rezava

três pai-nossos e duas ave-marias para se acalmar.

Na hora em que Olímpico lhe dera o fora, a reação dela (explosão) veio de repente

inesperada: pôs-se sem mais nem menos a rir. Ria por não ter se lembrado de chorar.

Surpreendido. Olímpico, sem entender, deu gargalhadas.

Ficaram rindo os dois. Aí ele teve uma intuição que finalmente era uma delicadeza:

perguntou-lhe se ela estava rindo de nervoso. Ela parou de rir e disse muito, muito

cansada:

– Não sei não...

Macabéa entendeu uma coisa: Glória era um estardalhaço de existir. E tudo devia

24 ser porque Glória era gorda. A gordura sempre fora o ideal secreto de Macabéa, pois em

Maceió ouvira um rapaz dizer para uma gorda que passava na rua: "a tua gordura é

formosura!" A partir de então ambicionara ter carnes e foi quando fez o único pedido de

sua vida. Pediu que a tia lhe comprasse óleo de fígado de bacalhau. (Já então tinha

tendência para anúncios.) A tia perguntara-lhe: você pensa lá que é filha de família

querendo luxo?

Depois que Olímpico a despediu, já que ela não era uma pessoa triste, procurou

continuar como se nada tivesse perdido. (Ela não sentiu desespero, etc. etc.) Também

que é que ela podia fazer? Pois ela era crônica. E mesmo tristeza também era coisa de

rico, era para quem podia, para quem não tinha o que fazer. Tristeza era luxo.

Esqueci de dizer que no dia seguinte ao que ele lhe dera o fora ela teve uma idéia.

Já que ninguém lhe dava festa, muito menos noivado, daria uma festa para si mesma. A

festa consistiu em comprar sem necessidade um batom novo, não cor-de-rosa como o

que usava, mas vermelho vivante. No banheiro da firma pintou a boca toda e até fora dos

contornos para que os seus lábios finos tivessem aquela coisa esquisita dos lábios de

Marylin Monroe. Depois de pintada ficou olhando no espelho a figura que por sua vez a

olhava espantada. Pois em vez de batom parecia que grosso sangue lhe tivesse brotado

dos lábios por um soco em plena boca, com quebra-dentes e rasga-carne (pequena

explosão). Quando voltou para a sala de trabalho Glória riu-se dela:

– Você endoidou, criatura? Pintar-se como uma endemoniada? Você até parece

mulher de soldado.

– Sou moça virgem! Não sou mulher de soldado e marinheiro.

– Me desculpe eu perguntar: ser feia dói?

– Nunca pensei nisso, acho que dói um pouquinho. Mas eu lhe pergunto se você

que é feia sente dor.

– Eu não sou feia!!! - gritou Glória.

Depois tudo passou e Macabéa continuou a gostar de não pensar em nada. Vazia,

vazia. Como eu disse, ela não tinha anjo da guarda. Mas se arranjava como podia.

Quanto ao mais, ela era quase impessoal. Glória perguntou-lhe:

– Por que é que você me pede tanta aspirina? Não estou reclamando, embora isso

custe dinheiro.

– É para eu não me doer.

– Como é que é? Hein? Você se dói?

– Eu me dôo o tempo todo.

– Aonde?

– Dentro, não sei explicar.

Aliás cada vez mais ela não se sabia explicar. Transformara-se em simplicidade

orgânica. E arrumara um jeito de achar nas coisas simples e honestas a graça de um

pecado. Gostava de sentir o tempo passar. Embora não tivesse relógio, ou por isso

mesmo, gozava o grande tempo. Era supersônica de vida. Ninguém percebia que ela

ultrapassava com sua existência a barreira do som. Para as pessoas outras ela não

existia. A sua única vantagem sobre os outros era saber engolir pílulas sem água, assim

a seco. Glória, que lhe dava aspirinas, admirava-a muito, o que dava a Macabéa um

banho de calor gostoso no coração. Glória advertiu-a:

– Um dia a pílula te cola na parede da garganta que nem galinha de pescoço meio

cortado, correndo por aí.

Um dia teve um êxtase. Foi diante de uma árvore tão grande que no tronco ela

nunca poderia abraça-la. Mas apesar do êxtase ela não morava com Deus. Rezava

indiferentemente. Sim. Mas o misterioso Deus dos outros lhe dava às vezes um estado

de graça. Feliz, feliz, feliz. Ela de alma quase voando. E também vira o disco-voador.

Tentara contar a Glória mas não tivera jeito, não sabia falar e mesmo contar o quê? O ar?

Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada.

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