A hora da Estrela (PT. 1) Clarice Lispector

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e

nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o

nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais

começou.

Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como

começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-

história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe passará a existir.

Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou

escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A

minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só

palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio

último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada

funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e

estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade.

Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí

aos montes.

Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há

dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De

quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em

que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer

sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.

Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal

narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de

vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será

essa história um dia meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – é claro que a

história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque

todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou

saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado

essencial.

Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o

vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição

no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste.

Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe.

Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos.

Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar

palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns

sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M.

Relato antigo, este, pois não quero ser mordenoso e inventar modismos à guisa de

originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com

começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.

História exterior e explícita, sim, mas que contém segredos – a começar por um dos

títulos. “Quanto ao futuro”, que é precedido por um ponto final e seguido de outro ponto

final. Não se trata de capricho meu – no fim talvez se entenda a necessidade do

delimitado. (Mal e mal vislumbro o final que, se minha pobreza permitir, quero que seja

grandioso.) Se em vez de ponto fosse seguido por reticências o título ficaria aberto a

possíveis imaginações vossas, porventura até malsãs e sem piedade. Bem, é verdade que

também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato

que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós. Por tudo isto é

que não vos dou a vez. Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária

que respira, respira, respira. Material poroso, um dia viverei aqui a vida de uma molécula

com seu estrondo possível de átomos. O que é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o

de revelar-lhe a vida.

Porque há o direito ao grito.

Então eu grito.

Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse

real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de

quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz

falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o

que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque

escritora mulher pode lacrimejar piegas.

Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama

num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são

facilmente substituíveis e que tanto existiram como não existiriam. Poucas se queixam e

ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?

Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter

coragem. Agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito

eu rezava: o movimento é espírito. A reza era um meio de mudamente e escondido de

todos atingir-me a mim mesmo. Quando rezava conseguia um oco de alma – e esse oco é

o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a

semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir

e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – meu mistério.

Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada vez mais simples. Aliás o

material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre os personagens

são poucas e não muito elucidativas, informações essas que penosamente me vêm de

mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria.

Sim, mas não esquecer que para escrever não-importa-o-quê o meu material

básico é palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em

frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que,

como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos

esplendorosos, carnudo substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar

em vias de ação, já que palavra é ação, concordai? Mas não vou enfeitar a palavra pois se

eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e a jovem poderia mordê-lo,

morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga

existência. Limito-me a humildemente – mas sem fazer estardalhaços de minha humildade

que já não seria humilde – limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa

cidade toda feita contra ela. Ela que devia ter ficado no Sertão de Alagoas com vestido de

chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano

primário. Por ser ignorante era obrigada na datilografia a copiar lentamente letra por letra

– a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater à máquina. E a moça ganhara uma

dignidade: era enfim datilógrafa. Embora, ao que parece, não aprovasse na linguagem

duas consoantes juntas e copiava a letra linda e redonda do amado chefe a palavra

“designar” de modo como em língua falada diria: “desiguinar”.

Desculpai-me mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido, e ao

escrever me surpreendo um pouco pois descobri que tenho um destino. Quem já não se

perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?

Quem antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à

toa. Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” Cairia estatelada em cheio no

chão. É que “quem sou eu?” Provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade?

Quem se indaga é incompleto.

A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua.

Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham.

Voltando a mim: o que escreverei não pode ser absorvido por mentes que muito

exijam e ávidas de requintes. Pois o que estarei dizendo será apenas nu. Embora tenha

como pano de fundo – e agora mesmo – a penumbra atormentada que sempre há nos

5 meus sonhos quando de noite atormentado durmo. Que não se esperem, então, estrelas

no que se segue: nada cintilará, trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza

desprezível por todos. É que a esta história falta melodia cantabile. O seu ritmo é às vezes

descompasso. E tem fatos. Apaixonei-me subitamente por fatos sem literatura – fatos são

pedras duras e agir está me interessando mais do que pensar, de fatos não há como fugir.

Pergunto-me se eu deveria caminhar à frente do tempo e esboçar logo um final.

Acontece porém que eu mesmo ainda não sei bem como isto terminará. E também porque

entendo que devo caminha passo a passo de acordo com um prazo determinado por

horas: até um bicho lida com o tempo. E esta é também a minha mais primeira condição:

a de caminhar paulatinamente apesar da impaciência que tenho em relação a essa moça.

Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada dia é um dia roubado

da morte. Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa

úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais,

estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede

vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro

com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de

bola sem bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia

muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.

Mas desconfio que toda essa conversa é feita apenas para adiar a pobreza da

história, pois estou com medo. Antes de ter surgido na minha vida essa datilógrafa, eu era

um homem até mesmo um pouco contente, apesar do mau êxito na minha literatura. As

coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que

amadurece plenamente pode apodrecer.

Transgredir, porém, os meus próprios limites me fascinou de repente. E foi quando

pensei em escrever sobre a realidade, já que essa me ultrapassa. Qualquer que seja o

que quer dizer “realidade”. O que narrarei será meloso? Tem tendência mas então agora

mesmo seco endureço tudo. E pelo menos o que escrevo não pede favor a ninguém e não

implora socorro: agüenta-se na sua chamada dor com uma dignidade de barão.

É. Parece que estou mudando o modo de escrever. Mas acontece que só escrevo o

que quero, não sou um profissional – e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela

me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vivos e

ríspidos de pintura. Estarei lidando com fatos como se fossem as irremediáveis pedras de

que falei. Embora queira que para me animar sinos badalem enquanto adivinho a

realidade. E que anjos esvoacem em vespas transparentes em torno de minha cabeça

quente porque esta quer se transformar em objeto-coisa, é mais fácil.

Será mesmo que a ação ultrapassa a palavra?

Mas que ao escrever – que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma

palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a. Esse vosso Deus que nos mandou

inventar.

Porque escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes

a forma é que faz conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por

motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”.

Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas

nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. Embora não

agüente bem ouvir um assovio no escuro, e passos. Escuridão? Lembro-me de uma

namorada: era moça-mulher e que escuridão dentro de seu corpo. Nunca a esqueci:

jamais se esquece a pessoa com quem se dormiu. O acontecimento fica tatuado em

marca de fogo na carne viva e todos os que percebem o estigma fogem com horror.

Quero neste instante falar da nordestina. É o seguinte: ela como uma cadela vadia

era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzia-se a si. Também eu, de

fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelos menos quero encontrar o mundo e seu

Deus.

6 Quero acrescentar, à guisa de informações sobre a jovem e sobre mim, que

vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia

de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.

E eis que fiquei receoso quando pus palavras sobre a nordestina. E a pergunta é:

como escrevo? Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi inglês e francês de

ouvido. Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro que os

que passam fome, o que faz de mim de algum modo desonesto. E só minto na hora exata

da mentira. Mas quando escrevo não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social,

marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com

desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim.

Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas

como aços espelhados.

Ah que medo de começar e ainda nem sequer sei o nome da moça. Sem falar que

a história me desespera por ser simples demais. O que me proponho a contar parece fácil

e à mão de todos. Mas a sua elaboração é muito difícil. Pois tenho que tornar nítido o que

está quase apagado e que mal vejo. Com mãos de dedos duros enlameados apalpar o

invisível na própria lama.

De uma coisa tenho certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a

criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Cuidai dela porque

meu poder é só mostrá-la para que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa

da esvoaçada magreza. E se for triste a minha narrativa? Depois na certa escreverei algo

alegre, embora alegre por quê? Porque também sou um homem de hosanas e um dia,

quem sabe, cantarei loas que não as dificuldades da nordestina.

Por enquanto quero andar nu ou em farrapos, quero experimentar pelos menos

uma vez a falta de gosto que dizem ter a história. Comer a hóstia será sentir o insosso do

mundo e banhar-se no não. Isso será coragem minha, a de abandonar sentimentos

antigos já confortáveis.

Agora não é confortável: para falar da moça tenho que não fazer a barba durante

dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar de pura exaustão, sou um

trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me pôr

ao nível da nordestina. Sabendo no entanto que talvez eu tivesse que me apresentar de

modo convincente às sociedades que muito reclamam de quem está neste instante

mesmo batendo à máquina.

Tudo isso, sim, a história é história. Mas sabendo antes para nunca esquecer que a

palavra é fruto da palavra. A palavra tem que se parecer com a palavra. Atingi-la é o meu

primeiro dever para comigo. E a palavra não pode ser enfeitada e artisticamente vã, tem

que ser apenas ela. Bem, é verdade que também queria alcançar uma sensação fina e

que esse finíssimo não se quebrasse em linha perpétua. Ao mesmo tempo que quero

também alcançar o trombone mais grosso e baixo, grave e terra, tão a troco de nada que

por nervosismo de escrever eu tivesse um acesso incontrolável de riso vindo do peito. E

quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muito acham: que existir é coisa de

doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico.

A ação desta história terá como resultado minha transfiguração em outrem e minha

materialização enfim em objeto. Sim, e talvez alcance a flauta doce em que eu me

enovelarei em macio cipó.

Mas voltemos a hoje. Porque, como se sabe, hoje é hoje. Não estão me

entendendo e eu ouço escuro que estão rindo de mim em risos rápidos e ríspidos de

velhos. E ouço passos cadenciados na rua. Tenho um arrepio de medo. Ainda bem que o

que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho é que

me copiar com uma delicadeza de borboleta branca. Essa idéia de borboleta branca vem

de que, se a moça vier a se casar, casar-se-á magra e leve, e, como virgem, de branco.

Ou não se casará? O fato é que tenho nas minhas mãos um destino e no entanto não me

7 sinto com o poder de livremente inventar: sigo uma oculta linha fatal. Sou obrigado a

procurar uma verdade que me ultrapassa. Por que escrevo sobre uma jovem que nem

pobreza enfeitada tem? Talvez porque nela haja um recolhimento e também porque na

pobreza de corpo e espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu

além. Para ser mais do que eu, pois tão pouco sou.

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na

terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto

mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu morreria

simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da

porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora

só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.

Pareço conhecer nos menores detalhes essa nordestina, pois se vivo com ela. E

com muito adivinhei a seu respeito, ela se me grudou na pele qual melado pegajoso ou

lama negra. Quando eu era menino li a história de um velho que estava com medo de

atravessar um rio. E foi quando apareceu um homem jovem que também queria passar

para a outra margem. O velho aproveitou e disse:

– Me leva também? Eu bem montado nos teus ombros?

O moço consentiu e passada a travessia avisou-lhe:

– Já chegamos, agora pode descer.

Mas aí o velho respondeu muito sonso e sabido.

– Ah, essa não! É tão bom estar aqui montado como estou que nunca mais vou sair

de você!

Pois a datilógrafa não quer sair dos meus ombros. Logo eu que constato que a

pobreza é feia e promíscua. Por isso não sei se minha história vai ser – ser o quê? Não

sei de nada, ainda não me animei a escrevê-la. Terá acontecimentos? Terá. Mas quais?

Também não sei. Não estou tentando criar em vós uma expectativa aflita e voraz: é que

realmente não sei o que me espera, tenho um personagem buliçoso nas mãos e que me

escapa a cada instante querendo que eu o recupere.

Esqueci de dizer que tudo o que estou agora escrevendo é acompanhado pelo rufar

enfático de um tambor batido por um soldado. No instante mesmo em que eu começar a

história – de súbito cessará o tambor.

Vejo a nordestina se olhando ao espelho e – um rufar de tambor – no espelho

aparece o meu rosto cansado e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos. Não há dúvida que

ela é uma pessoa física. E adianto um fato: trata-se de moça que nunca se viu nua porque

tinha vergonha. Vergonha por pudor ou por ser feia? Pergunto-me também como é que eu

vou cair de quatro em fatos e fatos. É que de repente o figurativo me fascinou: crio a ação

humana e estremeço. Também quero o figurativo assim como um pintor que só pintasse

cores abstratas quisesse mostrar que o fazia por gosto, e não por não saber desenhar.

Para desenhar a moça tenho que me domar e para poder captar sua alma tenho que me

alimentar frugalmente de frutas e beber vinho branco gelado pois faz calor neste cubículo

onde me tranquei e de onde tenho a veleidade de querer ver o mundo. Também tive que

me abster de sexo e de futebol. Sem falar que não entro em contacto com ninguém.

Voltarei algum dia à minha vida anterior? Duvido muito. Vejo agora que esqueci de dizer

que por enquanto nada leio para não contaminar com luxos a simplicidade de minha

linguagem. Pois como eu disse a palavra tem que se parecer com a palavra, instrumento

meu. Ou não sou um escritor? Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo

de pontuar, faço malabarismos de entonação, obrigo o respirar alheio a me acompanhar o

texto.

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