A hora da estrela (PT. 2)

Também esqueci de dizer que o registro que em breve vai ter que começar – pois já

não agüento mais a pressão dos fatos – o registro que em breve vai ter que começar é escrito sob o patrocínio do refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso me

paga nada, refrigerante esse espalhado por todos os países. Alias foi ele quem patrocinou

o último terremoto em Guatemala. Apesar de ter gosto do cheiro de esmalte de unhas, de

sabão Aristolino e plástico mastigado. Tudo isso não impede que todos o amem com

servilidade e subserviência. Também porque – e vou dizer agora uma coisa difícil que só

eu entendo – porque essa bebida que tem coca é hoje. Ela é um meio da pessoa

atualizar-se e pisar na hora presente.

Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem melhor. Ela

somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que

mais que isso? O seu viver é ralo. Sim. Mas por que estou me sentindo culpado? E

procurando aliviar-me do peso de nada ter feito de concreto em benefício da moça. Moça

essa – e vejo que já estou quase na história – moça essa que dormia de combinação de

brim com manchas bastante suspeitas de sangue pálido. Para adormecer nas frígidas

noites de inverno enroscava-se em si mesma, recebendo-se e dando-se o próprio parco

calor. Dormia de boca aberta por causa do nariz entupido, dormia exausta, dormia até o

nunca.

Devo acrescentar um algo que importa muito para a apreensão da narrativa: é que

esta é acompanhada do princípio ao fim por uma levíssima e constante dor de dentes,

coisa de dentina exposta. Afianço também que a história será igualmente acompanhada

pelo violino plangente tocado por um homem magro bem na esquina. A sua cara é estreita

e amarela como se ela já tivesse morrido. E talvez tenha.

Tudo isso eu disse tão longamente por medo de ter prometido demais e dar apenas

o simples e o pouco. Pois esta história é quase nada. O jeito pe começar de repente assim

como eu me lanço de repente na água gélida do mar, modo de enfrentar com uma

coragem suicida o intenso frio. Vou agora começar pelo meio dizendo que –

– que ela era incompetente. Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se

ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie que tinha de si em si mesma. Se

fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim. (Vai

ser difícil escrever esta historia. Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que

me escrever todo através dela por entre espantos meus. Os fatos são sonoros mas entre

os fatos há um sussurro. É o sussurro que me impressiona).

Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Tanto que (explosão) nada argumentou em seu

próprio favor quando o chefe da firma de representante de roldanas avisou-lhe com

brutalidade (brutalidade essa que ela parecia provocar com sua cara de tola, rosto que

pedia tapa), com brutalidade que só ia manter no emprego Glória, sua colega, porque

quanto a ela, errava demais na datilografia, além de sujar invariavelmente o papel. Isso

disse ele. Quanto à moça, achou que se deve por respeito responder alguma coisa e falou

cerimoniosamente a seu escondidamente amado chefe:

– Me desculpe o aborrecimento.

O senhor Raimundo Silveira – que a essa altura já lhe havia virado as costas –

voltou-se um pouco surpreendido com a inesperada delicadeza e alguma coisa na cara

quase sorridente da datilógrafa o fez dizer com menos grosseria na voz, embora a

contragosto:

– Bem, a despedida pode não ser para já, é capaz até de demorar um pouco.

Depois de receber o aviso foi ao banheiro para ficar sozinha porque estava toda

atordoada. Olhou-se maquinalmente ao espelho que encimava a pia imunda e rachada,

cheia de cabelos, o que tanto combinava com sua vida. Pareceu-lhe que o espelho baço e

escurecido não refletia imagem algum. Sumira por acaso a sua existência física? Logo

depois passou a ilusão e enxergou a cara todo deformada pelo espelho ordinário, o nariz

tornado enorme como o de um palhaço de nariz de papelão. Olhou-se e levemente

pensou: tão jovem e já com ferrugem.

(Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha. Não tinha

o quê? É apenas isso mesmo: não tinha. Se der para me entenderem, está bem. Se não,

9 também está bem. Mas por que trato dessa moça quando o que mais desejo é trigo

puramente maduro e ouro no estio?)

Quando era pequena sua tia para castigá-la com medo dissera-lhe que homem-

vampiro – aquele que chupa sangue da pessoa mordendo-lhe o tenro da garganta – não

tinha reflexo no espelho. Até que não seria de todo ruim ser vampiro pois bem lhe iria

algum rosado de sangue no amarelado do rosto, ela que não parecia ter sangue a menos

que viesse um dia a derramá-lo.

A moça tinha ombros curvos como os de uma cerzideira. Aprendera em pequena a

cerzir. Ela se realizaria muito mais se se desse ao delicado labor de restaurar fios, quem

sabe se de seda. Ou de luxo: cetim bem brilhoso, um beijo de almas. Cerzideirinha

mosquito. Carregar em costas de formiga um grão de açúcar. Ela era de leve como uma

idiota, só que não o era. Não sabia que era infeliz. É porque ela acredita. Em quê? Em

vós, mas não é preciso acreditar em alguém ou em alguma coisa – basta acreditar. Isso

lhe dava às vezes estado de graça. Nunca perdera a fé.

(Ela me incomoda tanto que fiquei oco. Estou oco desta moça. E ela tanto mais me

incomoda quanto menos reclama. Estou com raiva. Uma cólera de derrubar copos e

pratos e quebrar vidraças. Como me vingar? Ou melhor, como me compensar? Já sei:

amando meu cão que tem mais comida do que a moça. Por que ela não reage? Cadê um

pouco de fibra? Não, ela é doce obediente.)

Viu ainda dois olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos – tinha olhar de

quem tem uma asa ferida – distúrbio talvez de tiróide, olhos que perguntavam. A quem

interrogava ela? A Deus? Ela não pensava em Deus, Deus não pensava nela. Deus é de

quem conseguir pegá-lo. Na distração aparece Deus. Não fazia perguntas. Adivinhava que

não há respostas. Era lá tola de perguntar? E de receber um “não” na cara? Talvez a

pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao

menos havia perguntado. Por falta de que lhe respondesse ela mesma parecia se ter

respondido: é assim porque é assim. Existe no mundo outra resposta? Se alguém sabe de

uma melhor, que se apresente e a diga, estou há anos esperando.

Enquanto isso as nuvens são brancas e o céu é todo azul. Para que tanto Deus.

Por que não um pouco para os homens.

Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-

quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente examinou de

perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamavam-se “panos”, diziam que vinham do

fígado. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio caiada era

melhor que o pardacento. Ela toda era um pouco encardida pois raramente se lavava. De

dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação. Uma colega de quarto não sabia

como avisar-lhe que seu cheiro era morrinhento. E como não sabia, ficou por isso mesmo,

pois tinha medo de ofende-la. Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as

manchas tivesse um leve brilho de opala. Mas não importava. Ninguém olhava para ela na

rua, ela era café frio.

E assim se passava o tempo para a moça esta. Assoava o nariz na barra da

combinação. Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto. Só eu a vejo

encantadora. Sé eu, seu autor, a amo. Sofro por ela. E só eu é que posso dizer assim:

“que é que você me pede chorando que não lhe dê cantando”? Essa moça não sabia que

ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir

infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. Quem

sabe, achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a

ser feliz. Então era. Antes de nascer ela era uma idéia? Antes de nascer ela era morta? E

depois de nascer ela ia morrer? Mas que fina talhada de melancia.

Há poucos fatos a narrar e eu mesmo não sei ainda o que estou denunciando.

Agora (explosão) em rapidíssimos traços desenharei a vida pregressa da moça até

o momento de espelho do banheiro.

Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão – os maus antecedentes de que

falei. Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de

10 Alagoas, lá onde o diabo perdera as botas. Muito depois fora para Maceió com a tia beata,

única parenta sua no mundo. Uma outra vez se lembrava de coisa esquecida. Por

exemplo a tia lhe dando cascudos no alto da cabeça porque o cocuruto de cabeça devia

ser, imaginava a tia, um ponto vital. Dava-lhe sempre com os nós dos dedos na cabeça de

ossos fracos por falta de cálcio. Batia mas não era somente porque ao bater gozava de

grande prazer sensual – a tia que não se casara por nojo – é que também considerava de

dever seu evitar que a menina viesse um dia a ser uma dessas moças que em Maceió

ficavam nas ruas de cigarro aceso esperando homem. Embora a menina não tivesse dado

mostras de no futuro a ser vagabunda de rua. Pois até mesmo o fato de vir a ser uma

mulher não parecia pertencer à sua vocação. A mulherice só lhe nasceria tarde porque até

no capim vagabundo há desejo de sol. As pancadas ela esquecia pois esperando-se um

pouco a dor termina por passar. Mas o que doía mais era ser privada da sobremesa de

todos os dias: goiabada com queijo, a única paixão na sua vida. Pois não era que esse

castigo se tornara o predileto da tia sabida? A menina não perguntava por que era sempre

castigada mas nem tudo se precisa saber e não saber fazia parte importante de sua vida.

Esse não-saber pode parecer ruim mas não é tanto porque ela sabia muita coisa

assim como ninguém ensina cachorro a abanar o rabo e nem a pessoa a sentir fome;

nasce-se e fica-se logo sabendo. Assim como ninguém lhe ensinaria um dia a morrer: na

certa morreria um dia como se antes tivesse estudado de cor a representação do papel de

estrela. Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante

de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes.

Quando era pequena tivera vontade intensa de criar um bicho. Mas a tia achava

que ter um bicho era mais uma boca para comer. Então a menina inventou que só lhe

cabia criar pulgas pois não merecia o amor de um cão. Do contacto com a tia ficara-lhe a

cabeça baixa. Mas a sua beatice não lhe pegara: morta a tia, ela nunca mais fora a uma

igreja porque não sentia nada e as divindades lhe eram estranhas.

Pois a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual

era o botão de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela

era um parafuso dispensável. Mas uma coisa descobriu inquieta: já não sabia mais ter tido

pai e mãe, tinha esquecido o sabor. E, se pensava melhor, dir-se-ia que havia brotado da

terra do sertão em cogumelo logo mofado. Ela falava, sim, mas era extremamente muda.

Uma palavra dela eu às vezes consigo mas ela me foge por entre os dedos.

Apesar da morte da tia, tinha certeza de que com ela ia ser diferente, pois nunca ia

morrer. (É paixão minha ser o outro. No caso a outra. Estremeço esquálido igual a ela).

O definível está me cansando um pouco. Prefiro a verdade que há no prenúncio.

Quando eu me livrar dessa história, voltarei ao domínio mais irresponsável de apenas ter

leves prenúncios. Eu não inventei essa moça. Ela forçou de dentro de mim a sua

exigência. Ela não era nem de longe débil mental, era à mercê e crente como uma idiota.

A moça que pelo menos comida não mendigava, havia toda uma subclasse de gente mais

perdida e com fome. Só eu a amo.

Depois – ignora-se por quê – tinham vindo para o Rio, o inacreditável Rio de

Janeiro, a tia lhe arranjara emprego, finalmente morrera e ela, agora sozinha, morava

numa vaga de quarto compartilhado com mais quatro moças balconistas das Lojas

Americanas.

O quarto ficava num velho sobrado colonial da áspera rua do Acre entre as

prostitutas que serviam a marinheiros, depósitos de carvão e de cimento em pó, não longe

do cais do porto. O cais imundo dava-lhe saudade do futuro. (O que é que há? Pois estou

como que ouvindo acordes de piano alegre – será isto o símbolo de que a vida da moça

iria ter um futuro esplendoroso? Estou contente com essa possibilidade e farei tudo para

que esta se torne real).

Rua do Acre. Mas que lugar. Os gordos ratos da rua do Acre. Lá é que não piso

pois tenho horror sem nenhuma vergonha do pardo pedaço da vida imunda.

Uma vez por outra tinha a sorte de ouvir de madrugada um galo cantar a vida e ela

se lembrava nostálgica do sertão. Onde caberia um galo a cocoricar naquelas paragens

11 ressequidas de artigos por atacado de exportação e importação? (Se o leitor possui

alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes o outro. Se é

pobre, não estará me lendo porque ler-me é superfulo para quem tem uma leve fome

permanente. Faço aqui o papel de vossa válvula de escape e da vida massacrante da

média burguesia. Bem sei que é assustador sair de si mesmo, mas tudo o que é novo

assusta. Embora a moça anônima da história seja tão antiga que podia ser uma figura

bíblica. Ela era subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela era capim).

Dos verões sufocantes da abafada rua do Acre ela só sentia o suor, um suor que

cheirava mal. Esse suor me parece de má origem. Não sei se estava tuberculosa, acho

que não. No escuro da noite um homem assobiando e passos pesados, o uivo do vira-lata

abandonado. Enquanto isso – as constelações silenciosas e o espaço que é tempo que

nada tem a ver com ela e conosco. Pois assim se passavam os dias. O cantar de galo na

aurora sanguinolenta dava um sentido fresco à sua vida murcha. Havia de madrugada

uma passarinhada buliçosa na rua do Acre: é que a vida brotava no chão, alegre por entre

pedras.

Rua do Acre para morar, rua do Lavradio para trabalhar, cais do porto para ir espiar

no domingo, um ou outro prolongado apito de navio cargueiro que não se sabe por que

dava aperto no coração, um ou outro delicioso embora um pouco doloroso cantar de galo.

Era do nunca que vinha o galo. Vinha do infinito até a sua cama, dando-lhe gratidão. Sono

superficial porque estava há quase um ano resfriada. Tinha acesso de tosse seca de

madrugada: abafava-a com o travesseiro ralo. Mas as companheiras do quarto – Maria da

Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria apenas – não se incomodavam. Estavam

cansadas demais pelo trabalho que nem por ser anônimo era menos árduo. Uma vendia

pó-de-arroz Coty, mas que idéia. Elas viravam para o outro lado e readormeciam. A tosse

da outra até que as embalava em sono mais profundo. O céu é para baixo ou para cima?

Pensava a nordestina. Deitada, não sabia. Às vezes antes de dormir sentia fome e ficava

meio alucinada pensando em coxa de vaca. O remédio então era mastigar papel bem

mastigadinho e engolir.

É. Eu me acostumo mas não amanso. Por Deus! Eu me dou melhor com os bichos

do que com gente. Quando vejo o meu cavalo livre e solto no prado – tenho vontade de

encostar meu rosto no seu vigoroso e aveludado pescoço e contar-lhe a minha vida. E

quando acaricio a cabeça de meu cão – sei que ele não exige que eu faça sentido ou me

explique.

Talvez a nordestina já tivesse chegado à conclusão de que a vida incomoda

bastante, alma que não cabe bem no corpo, mesmo alma rala como a sua.

Imaginavazinha, toda supersticiosa, que se por acaso viesse alguma vez a sentir um gosto

bem bom de viver – se desencantaria de súbito de princesa que era e se transformaria em

bicho rasteiro. Porque, por pior que fosse sua situação, não queria ser privada de si, ela

queria ser ela mesma. Achava que cairia em grave castigo e até risco de morrer se tivesse

gosto. Então defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco

de sua vida para esta não acabar. Essa economia lhe dava alguma segurança pois, quem

cai, do chão não passa. Teria ela a sensação de que vivia para nada? Nem posso saber,

mas acho que não. Só uma vez se fez uma trágica pergunta: Quem sou eu? Assustou-se

tanto que parou completamente de pensar. Mas eu, que não chego a ser ela, sinto que

vivo para nada. Sou gratuito e pago as contas de luz, gás e telefone. Quanto à ela, até

mesmo de vez em quando ao receber o salário comprava uma rosa.

Tudo isso acontece no ano este que passa e só acabarei esta história difícil quando

eu ficar exausto da luta, não sou um desertor.

Às vezes lembrava-se de uma assustadora canção desafinada de meninas

brincando de roda de mãos dadas – ela só ouvia sem participar porque a tia a queria para

varrer o chão. As meninas de cabelos ondulados com laços de fita cor-de-rosa. “Quero

uma de vossas filhas de marré-marré-deci”. “Escolhei a qual quiser marré”. A música era

um fantasma pálido como uma rosa que é louca de beleza mas mortal: pálida e mortal a

moça era hoje o fantasma suave e terrificante de uma infância sem bola nem boneca.

12 Então costumava fingir que corria pelos corredores de boneca na mão atrás de uma bola e

rindo muito a gargalhada era aterrorizadora porque acontecia no passado e só a

imaginação maléfica a trazia para o presente, saudade do que poderia ter sido e não foi.

(Eu bem avisei que era literatura de cordel, embora eu me recuse a ter qualquer piedade).

Devo dizer que essa moça não tem consciência de mim, se tivesse teria para quem

rezar e seria a salvação. Mas eu tenho plena consciência dela: através dessa jovem dou o

meu grito de horror à vida. À vida que tanto amo.

Volto à moça: o luxo que se dava era tomar um gole de café frio antes de dormir.

Pagava o luxo tendo azia ao acordar.

Ela era calada (por não ter o que dizer) mas gostava de ruídos. Eram vida.

Enquanto o silêncio da noite assustava: parecia que estava prestes a dizer uma palavra

fatal. Durante a noite na rua do Acre era raro passar um carro, quanto mais buzinassem,

melhor para ela. Além desses medos, como se não bastassem, tinha medo grande de

pegar doença ruim lá embaixo dela – isso, a tia lhe ensinara. Embora os seus pequenos

óvulos tão murchos. Tão, tão. Mas vivia em tanta mesmice que de noite não se lembrava

do que acontecera de manha. Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o

seguinte: já que sou, o jeito é ser. Os galos de que falai avisavam mais um repetido dia de

cansaço. Cantavam o cansaço. E as galinhas, que faziam elas? Indagava-se a moça. Os

galos pelo menos cantavam. Por falar em galinha, a moça às vezes comia num botequim

um ovo duro. Mas a tia lhe ensinara que comer ovo fazia mal para o fígado. Sendo assim,

obediente adoecia, sentindo dores do lado esquerdo oposto ao fígado. Pois era muito

impressionável e acreditava em tudo o que existia e no que não existia também. Mas não

sabia enfeitar a realidade. Para ela a realidade era demais para ser acreditada. Aliás a

palavra “realidade” não lhe dizia nada. Nem a mim, por Deus.

Quando dormia quase que sonhava que a tia lhe batia na cabeça. Ou sonhava

estranhamente em sexo, ela que de aparência era assexuada. Quando acordava se sentia

culpada sem saber por quê, talvez porque o que é bom devia ser proibido. Culpada e

contente. Por via das dúvidas se sentia de propósito culpada e rezava mecanicamente

três ave-marias, amém, amém, amém. Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era

Ele e portanto Ele não existia.

Acabo de descobrir que para ela, fora Deus, também a realidade era muito pouco.

Dava-se melhor com um irreal cotidiano, vivia em câmara leeeenta, lebre puuuuulando no

aaar sobre os ooooouteiros, o vago era o seu mundo terrestre, o vago era o de dentro da

natureza.

E achava bom ficar triste. Não desesperada, pois isso nunca ficara já que era tão

modesta e simples mas aquela coisa indefinível como se ela fosse romântica. Claro que

era neurótica, não há sequer necessidade de dizer. Era uma neurose que a sustentava,

meu Deus, pelo menos isso: muletas. Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as

vitrines faiscantes de jóias e roupas acetinadas – só para se mortificar um pouco. É que

ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro.

Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada.

O pior momento de sua vida era nesse dia ao fim da tarde: caía em meditação

inquieta, o vazio do seco domingo. Suspirava. Tinha saudade de quando era pequena –

farofa seca – e pensava que fora feliz. Na verdade por pior a infância é sempre

encantada, que susto. Nunca se queixava de nada, sabia que as coisas são assim mesmo

e – quem organizou a terra dos homens? Na certa mereceria um dia o céu dos oblíquos

onde só entra quem é torto. Aliás não é entrar no céu, é oblíquo na terra mesmo. Juro que

nada posso fazer por ela. Afianço-vos que se eu pudesse melhoraria as coisas. Eu bem

sei que dizer que a datilógrafa tem o corpo cariado é um dizer de brutalidade pior que

qualquer palavrão.

(Quanto a escrever, mas vale um cachorro vivo).

Devo registrar aqui uma alegria. É que a moça num aflitivo domingo sem farofa teve

uma inesperada felicidade que era inexplicável: no cais do porto viu um arco-íris.

Experimentando o leve êxtase, ambicionou logo outro: queria ver, como uma vez em

13 Maceió, espocarem mudos fogos de artifício. Ela quis mais porque uma verdade que

quando se dá a mão, essa gentinha quer todo o resto, o zé-povinho sonha com fome de

tudo. E quer mas sem direito algum, pois não é? Não havia meio – pelo menos eu não

posso – de obter os multiplicantes brilhos em chuva chuvisco dos fogos de artifício.

Devo dizer que ela era doida por soldado? Pois era. Quando via um, pensava com

estremecimento de prazer: será que ele vai me matar?

Se a moça soubesse que minha alegria também vem de minha mais profundo

tristeza e que tristeza era uma alegria falhada. Sim, ela era alegrezinha dentro de sua

neurose. Neurose de guerra.

E tinha um luxo, além de uma vez por mês ir ao cinema: pintava de vermelho

grosseiramente escarlate as unhas das mãos. Mas como as roia quase até o sabugo, o

vermelho berrante era logo desgastado e via-se o sujo preto por baixo.

E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que

pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-

se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser.

Será que eu enriqueceria este relato se usasse alguns difíceis termos técnicos?

Mas aí que está: esta história não tem nenhuma técnica, nem estilo, ela é ao deus-dará.

Eu que também não marcharia por nada deste mundo com palavras brilhantes e falsas

uma vida parca como a da datilógrafa. Durante o dia eu faço, como todos, gestos

despercebidos por mim mesmo. Pois um dos gestos mais despercebidos é esta história de

que não tenho culpa e que sai como sair. A datilógrafa vivia numa espécie de atordoado

nimbo, entre céu e inferno. Nunca pensara em “eu sou eu”. Acho que julgava não ter

direito, ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal. Há

milhares como ela? Sim, e que são apenas um acaso. Pensando bem: quem não é um

acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que

é um ato que é um fato. É quando entro em contato forças interiores minhas, encontro

através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às

vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de

tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro.

A nordestina não acreditava na morte, como eu já disse, pensava que não – pois

não é que estava viva? Esquecera os nomes da mãe e do pai, nunca mencionados pela

tia. (Com excesso de desenvoltura estou usando a palavra escrita e isso estremece em

mim que fico com medo de me afastar da Ordem e cair no abismo povoado de gritos: o

Inferno da liberdade. Mas continuarei.)

Continuando.

Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por uma colega de moradia, Maria

da Penha, ligava bem baixinho para não acordar as outras, ligava invariavelmente para a

Rádio Relógio, que dava “hora certa e cultura”, e nenhuma música, só pingava em som

gotas que caem – cada gota de minuto que passava. E sobretudo esse canal de rádio

aproveitava intervalos entre as tais gotas de minuto para das anúncios comerciais – ela

adorava anúncios. Era rádio perfeita pois também entre os pingos do tempo dava curtos

ensinamentos dos quais talvez algum dia viesse a precisar saber. Foi assim que aprendeu

que o Imperador Carlos Magno era na terra dele chamado Carolus. Verdade que nunca

achara modo de aplicar essa informação. Mas nunca se sabe, quem espera sempre

alcança. Ouvira também a informação de que o único animal que não cruza com filho era

o cavalo.

- Isso, moço, é indecência, disse ela para a rádio.

Outra vez ouvira: “Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade”. Então ela se

arrependera. Como não sabia bem de quê, arrependia-se toda e de tudo. O pastor

também falava que vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava.

Sim, quem espera sempre alcança. É?

Tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma

como se comesse as próprias entranhas. Quando ia ao trabalho parecia uma doida mansa

porque ao correr do ônibus devaneava em altos e deslumbrantes sonhos. Estes sonhos,

14 de tanta interioridade, eram vazios porque lhe faltava o núcleo essencial de uma prévia

experiência de – de êxtase, digamos. A maior parte do tempo tinha sem o saber o vazio

que enche a alma dos santos. Ela era santa? Ao que parece. Não sabia que meditava pois

não sabia o que queria dizer a palavra. Mas parece-me que sua vida era uma longa

meditação sobre o nada. Só que precisava dos outros para crer em si mesma, senão se

perderia nos sucessivos e redondos vácuos que havia nela. Meditava enquanto batia à

máquina e por isso errava ainda mais.

Mas tinha prazeres. Nas frígidas noites, ela, toda estremecente sob o lençol de

brim, costumava ler à luz de vela os anúncios que recortava de jornais velhos do

escritório. Colava-os no álbum. Havia um anúncio, o mais precioso, que mostrava em

cores o pote aberto de um creme para pele de mulheres que simplesmente não eram ela.

Executando o fatal cacoete que pegara de piscar os olhos, ficava só imaginando com

delícia: o creme era tão apetitoso que se tivesse dinheiro para compra-lo não seria boba.

Que pele, que nada, ela o comeria, isso sim, à colheradas no pote mesmo. É que lhe

faltava gordura e seu organismo estava seco que nem saco meio vazio de torrada

esfarelada. Tornara-se com o tempo apenas matéria vivente em sua fonte primária. Talvez

fosse assim para se defender da grande tentação de ser infeliz de uma vez e ter pena de

si. (Quando penso que eu podia ter nascido ela – e por que não? – estremeço. E parece-

me covarde fuga de eu não ser, sinto culpa como disse num dos títulos.)

Em todo caso o futuro parecia via a ser muito melhor. Pelos menos o futuro tinha a

vantagem de não ser o presente. Sempre há um melhor para o ruim. Mas não havia nela

miséria humana. É que tinha em si mesma uma certa flor fresca. Pois, por estranho que

pareça, ela acreditava. Era apenas fina matéria orgânica. Existia. Só isto. E eu? De mim

só se sabe o que respiro.

Embora só tivesse nela a pequena flama indispensável: um sopro de vida. (Estou

passando por um pequeno inferno com esta história. Queiram os deuses que eu nunca

descreva o lázaro porque senão eu me cobriria de lepra.) (Se estou demorando um pouco

em fazer acontecer o que já prevejo vagamente, é porque preciso tirar vários retratos

dessa alagoana. E também porque se houver algum leitor para essa história quero que ele

se embeba da jovem assim como um pano de chão todo encharcado. A moça é uma

verdade da qual eu não queria saber. Não sei a quem acusar mas deve haver um réu.)

Será que entrando na semente de sua vida estarei como que violando o segredo

dos faraós? Terei castigo de morte por falar de uma vida que contém como todas um

segredo inviolável? Estou procurando danadamente achar nessa existência pelos menos

um topázio de esplendor. Até o fim talvez o deslumbre, ainda não sei, mas tenho

esperança.

Esqueci de dizer que às vezes a datilógrafa tinha enjôo para comer. Isso vinha

desde pequena quando soubera que havia comido gato frito. Assustou-se para sempre.

Perdeu o apetite, só tinha grande fome. Parecia-lhe que havia cometido um crime e que

comera um anjo e, porque acreditava, eles existiam.

Nunca havia jantado ou almoçado num restaurante. Era de pé mesmo no botequim

da esquina. Tinha uma vaga idéia que mulher que entra em restaurante é francesa e

desfrutável.

Havia coisas que não sabia o que significava. Uma era “efeméride”. E não é que

Seu Raimundo só mandava copiar com sua letra linda a palavra efemérides ou

efeméricas? Achava o termo efemírides absolutamente misterioso. Quando copiava

prestava atenção a cada letra. Glória era estenografa e não só ganhava mais como não

parecia se atrapalhar com as palavras difíceis das quais o chefe tanto gostava. Enquanto

isso a mocinha se apaixonara pela palavra efemérides.

Outro retrato: nunca recebera presentes. Aliás não precisava de muita coisa. Mas

um dia viu algo que por um leve instante cobiçou: um livro que Seu Raimundo, dado a

literatura, deixara sobre a mesa. O título era “Humilhados e Ofendidos”. Ficou pensativa.

Talvez tivesse pela primeira vez se definido numa classe social. Pensou, pensou e

pensou! Chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo que

15 acontecia era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que

lutar?

Pergunto eu: conheceria ela algum dia do amor o seu adeus? Conheceria algum do

amor os seus desmaios? Teria a seu modo o doce vôo? De nada sei. Que se há de fazer

com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só. A nordestina se

perdia na multidão. Na praça Mauá onde tomava o ônibus fazia frio e nenhum agasalho

havia contra o vento. Ah mas existiam os navios cargueiros que lhe davam saudades

quem sabe de quê. Isso só às vezes. Na verdade saía do escritório sombrio, defrontava o

ar lá de fora, crepuscular, e constatava então que todos os dias à mesma hora fazia

exatamente a mesma hora. Irremediavelmente era o grande relógio que funcionava no

tempo. Sim, desesperadamente para mim, as mesmas horas. Bem, e daí? Daí, nada.

Quanto a mim, autor de uma vida, me dou mal com a repetição: a rotina me afasta de

minhas possíveis novidades.

Por falar em novidades, a moça um dia viu num botequim um homem tão, tão, tão

bonito que - que queria tê-lo em casa. Deveria ser, como - como ter uma grande

esmeralda-esmeralda-esmeralda num estojo aberto. Intocável. Pela aliança viu que ele

era casado. Como casar com-com-com um ser que era para-para-para ser visto,

gaguejava ela no seu pensamento. Morreria de vergonha de comer na frente dele porque

ele era bonito além do possível equilíbrio de uma pessoa.

Pois não é que quis descansar as costas, por um dia? Sabia que se falasse isso ao

chefe ele não acreditaria que lhe doíam as costelas. Então valeu-se de uma mentira que

convence mais que a verdade: disse ao chefe que no dia seguinte não poderia trabalhar

porque arrancar um dente era muito perigoso. E a mentira pegou. Às vezes só a mentira

salva. Então, no dia seguinte, quando as quatro Marias cansadas foram trabalhar, ela teve

pela primeira vez na vida uma coisa a mais preciosa: a solidão. Tinha um quarto só para

ela. Mal acreditava que usufruía o espaço. E nem uma palavra era ouvida. Então dançou

num ato de absoluta coragem, pois a tia não a entenderia. Dançava e rodopiava porque

ao estar sozinha se tornava: l-i-v-r-e! Usufruía de tudo, da arduamente conseguida solidão,

do rádio de pilha tocando o mais alto possível, da vastidão do quarto sem as Marias.

Arrumou, como pedido de favor, um pouco de café solúvel com a dona dos quartos, e,

ainda como favor, pediu-lhe água fervendo, tomou tudo se lambendo e diante do espelho

para nada perder de si mesma. Encontrar-se consigo própria era um bem que ela até

então não conhecia. Acho que nunca fui tão contente na vida, pensou. Não devia nada a

ninguém e ninguém lhe devia nada. Até deu-se ao luxo de ter tédio - um tédio até muito

distinto.

Desconfio um pouco de sua facilidade inesperada de pedir favor. Então precisava

ela de condições especiais para ter encanto? Por que não agia sempre assim na vida? E

até ver-se no espelho não foi tão assustador: estava contente mas como doía.

– Ah mês de maio, não me largues nunca mais! (Explosão) foi a sua íntima

exclamação no dia seguinte, 7 de maio, ela que nunca exclamava. Provavelmente porque

alguma coisa finalmente lhe era dada. Dada por si mesma, mas dada.

Nesta manhã de dia 7, o êxtase inesperado para o seu tamanho pequeno corpo. A

luz aberta e rebrilhante das ruas atravessava a sua opacidade. Maio, mês dos véus de

noiva flutuando em branco.

O que se segue é apenas uma tentativa de reproduzir três páginas que escrevi e

que a minha cozinheira, vendo-as soltas, jogou no lixo para o meu desespero - que os

mortos me ajudem a suportar o quase insuportável, já que de nada me valem os vivos.

Nem de longe consegui igualar a tentativa de repetição artificial do que originalmente eu

escrevi sobre o encontro com o seu futuro namorado. É com humildade que contarei

agora a história da história. Portanto se me perguntarem como foi direi: não sei, perdi o

encontro.

Maio, mês das borboletas noivas flutuando em brancos véus. Sua exclamação

talvez tivesse sido um prenúncio do que ia acontecer no final da tarde desse mesmo dia:

no meio da chuva abundante encontrou (explosão) a primeira espécie de namorado de

16 sua vida, o coração batendo como se ela tivesse englutido um passarinho esvoaçante e

preso. O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois

nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam. Ele a olhara enxugando o rosto

molhado com as mãos. E a moça, bastou-lhe vê-lo para torná-lo imediatamente sua

goiabada-com-queijo.