A hora da estrela (PT. 4 (último))

Às vezes a graça a pegava em pleno escritório. Então ela ia ao banheiro para ficar

sozinha. De pé e sorrindo até passar (parece-me que esse Deus era muito misericordioso com ela: dava-lhe o que lhe tirava). Em pé pensando em nada, os olhos moles.

Nem Glória era uma amiga: só colega. Glória roliça, branca e morna. Tinha um

cheiro esquisito. Porque não se lavava muito, com certeza. Oxigenava os pêlos das

pernas cabeludas e das axilas que ela não raspava. Olímpico: será que ela é loura

embaixo também?

Em relação a Macabéa, Glória tinha um vago senso de maternidade. Quando

Macabéa lhe parecia murcha demais, dizia:

– E esse ar é por causa de?

Macabéa, que nunca se irritava com ninguém, arrepiava-se com o hábito que

Glória tinha de deixar a frase inacabada. Glória usava uma forte água-de-colônia de

sândalo e Macabéa, que tinha estômago delicado, quase vomitava ao sentir o cheiro.

Nada dizia porque Glória era agora a sua conexão com o mundo. Este mundo fora

composto pela tia, Glória, o Seu Raimundo e Olímpico - e de muito longe as moças com

as quais repartia o quarto. Em compensação se conectava com o retrato de Greta Garbo

quando moça. Para minha surpresa, pois eu não imaginava Macabéa capaz de sentir o

que diz um rosto como esse. Greta Garbo, pensava ela sem se explicar, essa mulher

deve ser a mulher mais importante do mundo. Mas o que ela queria mesmo ser não era a

altiva Greta Garbo cuja trágica sensualidade estava em pedestal solitário. O que ela

queria, como eu já disse era parecer com Marylin. Um dia, em raro momento de

confissão, disse a Glória quem ela gostaria de ser. E Glória caiu na gargalhada:

– Logo ela, Maca? Vê se te manca!

Glória era toda contente consigo mesma: dava-se grande valor. Sabia que o sestro

molengole de mulata, uma pintinha marcada junto da boca, só para dar uma gostosura, e

um buço forte que ela oxigenava. Sua boca era loura. Parecia até um bigode. Era uma

safadinha esperta mas tinha força de coração. Penalizava-se com Macabéa mas ela que

se arranjasse, quem mandava ser tola? E Glória pensava: não tenho nada a ver com ela.

Ninguém pode entrar no coração de ninguém. Macabéa até que falava com Glória -

mas nunca de peito aberto.

Glória tinha um traseiro alegre e fumava cigarro mentolado para manter um hálito

bom nos seus beijos internináveis com Olímpico. Ela era muito satisfatona: tinha tudo o

que seu pouco anseio lhe dava. E havia nela um desafio que se resumia em "ninguém

manda em mim". Mas lá um dia pôs-se a olhar e a olhar e a olhar Macabéa. De repente

não agüentou e com um sotaque levemente português disse:

– Oh mulher, não tens cara?

– Tenho sim. É porque sou achatada de nariz, sou alagoana.

– Diga-me uma coisa: você pensa no teu futuro?

A pergunta ficou por isso mesmo, pois a outra não soube responder.

Muito bem. Voltemos a Olímpico.

Ele, para impressionar Glória e cantar logo de galo, comprou pimenta-malagueta

das brabas na feira dos nordestinos e para mostrar à nova namorada o durão que era

mastigou em plena poupa a fruta do diabo. Nem sequer tomou um copo de água para

apagar o fogo nas entranhas. O ardor quase intolerável no entanto o enrijeceu, sem

contar que Glória assustada passou a obedecê-lo. Ele pensou: pois não é que sou um

vencedor? E agarrou-se em Glória com a força de um zangão, ela lhe daria mel de

abelhas e carnes fartas. Não se arrependeu um só instante de romper com Macabéa pois

seu destino era o de subir para um dia entrar no mundo dos outros. Ele tinha fome de ser

outro. No mundo de Glória, por exemplo, ele ia se locupletar, o frágil machinho. Deixaria

enfim de ser o que sempre fora e que escondia até de si mesmo por vergonha de tal

fraqueza: é que desde menino na verdade não passava de um coração solitário pulsando

com dificuldade no espaço. O sertanejo é antes de tudo um paciente. Eu o perdôo.

Glória, querendo compensar o roubo do namorado da outra, convidou-a para tomar

lanche da tarde, domingo, na sua casa. Soprar depois de morder? (Ah que história banal,

mal agüento escrevê-la.)

26 E lá (pequena explosão) Macabéa arregalou os olhos. É que na suja desordem de

uma terceira classe de burguesia havia no entanto o morno conforto de quem gasta todo o

dinheiro em comida, no subúrbio comia-se muito. Glória morava na rua General não-sei-o-

quê, muito contente de morar em rua de militar, sentia-se mais garantida. Em sua casa até

telefone tinha. Foi talvez essa uma das poucas vezes em que Macabéa viu que não havia

lugar no mundo e exatamente porque Glória tanto lhe dava. Isto é, um farto copo de

grosso chocolate de verdade misturado com leite e muitas espécies de roscas

açucaradas, sem falar num pequeno bolo. Macabéa, enquanto Glória saía da sala -

roubou escondido um biscoito. Depois pediu perdão ao Ser abstrato que dava e tirava.

Sentiu-se ,perdoada. O Ser a perdoava de tudo.

No dia seguinte, segunda-feira, não sei se por causa do fígado atingido pelo

chocolate ou por causa de nervosismo de beber coisa de rico, passou mal. Mas teimosa

não vomitou para não desperdiçar o luxo do chocolate. Dias depois, recebendo o salário,

teve a audácia de pela primeira vez na vida (explosão) procurar o médico barato indicado

por Glória: Ele a examinou, a examinou e de novo a examinou.

– Você faz regime para emagrecer, menina?

Macabéa não soube o que responder.

– O que é que você come?

– Cachorro-quente.

– Só?

– Às vezes como sanduíche de mortadela.

– Que é que você bebe? Leite?

– Só café e refrigerante.

– Que refrigerante? - perguntou ele sem saber o que falar. A toa indagou:

– Você às vezes tem crise de vômito?

– Ah, nunca!, exclamou muito espantada, pois não era doída de desperdiçar

comida, como eu disse.

O médico olhou-a e bem sabia que ela não fazia regime para emagrecer. Mas era-

lhe mais cômodo insistir em dizer que não fizesse dieta de emagrecimento. Sabia que

era assim mesmo e que era médico de pobres. Foi o que disse enquanto lhe receitava

um tônico que ela depois nem comprou, achava que ir ao médico por si só já curava. Ele

acrescentou irritado sem atinar com o porquê de sua súbita irritação e revolta:

– Essa história de regime de cachorro-quente é pura neurose e o que está

precisando é procurar um psicanalista!

Ela nada entendeu mas pensou que o médico esperava que ela sorrisse. Então

sorriu.

O médico muito gordo e suado tinha tique nervoso que o fazia de quando em quando

ritmadamente repuxar os lábios. O resultado era parecer que estava fazendo beicinho de

bebê quando está prestes a chorar.

Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medida era apenas para ganhar

dinheiro e nunca por amor á profissão nem a doentes. Era desatento e achava a pobreza

uma coisa feia. Trabalhava para os pobres detestando lidar com eles. Eles eram para ele

o rebotalho de uma sociedade muito alta á qual também ele não pertencia. Sabia que

estava desatualizado na medicina e nas novidades clínicas mas para pobre servia. O seu

sonho era ter dinheiro para fazer exatamente o que queria: nada.

Quando ele avisara que ia examiná-la ela disse:

– Ouvi dizer que no médico se tira a roupa mas eu não tiro coisa nenhuma.

Passara-a pelo raio X e dissera:

– Você está com começo de tuberculose pulmonar.

Ela não sabia se isso era coisa boa ou coisa ruim. Bem, como era uma pessoa

muito educada, disse:

– Muito obrigada, sim?

O médico simplesmente se negou a ter piedade. E acrescentou: quando você não

souber o que comer faça um espaguete bem italiano.

27 E acrescentou com um mínimo de bondade a que ele se permitia já que se

considerava também injustiçado pela sorte:

– Não é tão caro assim ...

– Esse nome de comida que o senhor falou eu nunca comi na vida. É bom?

– Claro que é! Olhe só a minha barriga! Isso é resultado de boas macarronadas e

muita cerveja. Dispense a cerveja, é melhor não beber álcool. Ela repetiu cansada:

– Álcool?

– Sabe de uma coisa? Vá para os raios que te partam!

Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua

feiúra e anonimato total pois ela não é para ninguém. Apaixonado por seus pulmões

frágeis, a magricela. Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse:

– Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes

até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem

quando estou sozinha.

Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E

acontece que não tinha consciência de si e não reclamava nada, até pensava que era

feliz. Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos idiotas. E também não

prestava atenção em si mesma: ela não sabia. (Vejo que tentei dar a Maca uma situação

minha: eu preciso de algumas horas de solidão por dia senão "me muero".)

Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho. Quando eu era pequeno

pensava que de um momento para outro eu cairia para fora do mundo. Por que as nuvens

não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta.

Inteligente, não é? Sim, mas caem um dia em chuva. É a minha vingança.

Nada contou a Glória porque de um modo geral mentia: tinha vergonha da

verdade. A mentira era tão mais decente. Achava que boa educação é saber mentir.

Mentia também para si mesma em devaneio volátil na sua inveja da colega. Glória, por

exemplo, era inventiva: Macabéa viu-a se despedir de Olímpico beijando a ponta dos

próprios dedos e jogando o beijo no ar como se solta passarinho, o que Macabéa nunca

pensaria em fazer.

(Esta história são apenas fatos não trabalhados de matéria-prima e que me

atingem direto antes de eu pensar. Sei muita coisa que não posso dizer. Aliás pensar o

quê?) Glória, talvez por remorso, disse-lhe:

– Olímpico é meu mas na certa você arranja outro namorado: Eu digo que ele é

meu porque foi o que a minha cartomante me disse e eu não quero desobedecer porque

ela é médium e nunca erra. Por que você não paga uma consulta e pede pra ela te pôr as

cartas?

– É muito caro?

Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. Se

ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A

procura da palavra no escuro. O pequeno sucesso me invade e me põe no olho da rua.

Eu queria chafurdar no lodo, minha necessidade de baixeza eu mal controlo, a

necessidade da orgia e do pior gozo absoluto. O pecado me atrai, o que é proibido me

fascina. Quero ser porco e galinha e depois matá-los e beber-lhes o sangue. Penso no

sexo de Macabéa, miúdo mas inesperadamente coberto de grossos e abundantes pêlos

negros - seu sexo era a única marca veemente de sua existência.

Ela nada pedia mas seu sexo exigia, como um nascido girassol num túmulo.

Quanto a mim, estou cansado.Talvez da companhia de Macabéa, Glória, Olímpico. O

médico me enjoou com sua cerveja. Tenho que interromper esta história por uns três dias.

28 Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me e tiro-me

de mim como quem tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer.

E agora emerjo e sinto falta de Macabéa. Continuemos:

– É muito caro?

– Eu lhe empresto. Inclusive madama Carlota também quebra feitiço que tenham

feito contra a gente. Ela quebrou o meu à meia-noite em ponto de uma sexta-feira treze

de agosto, lá para lá de S. Miguel, num terreiro de macumba. Sangraram em cima de

mim um porco preto, sete galinhas brancas e me rasgaram a roupa que já estava toda

ensangüentada. Você tem coragem?

– Não sei se posso ver sangue.

Talvez porque sangue é a coisa secreta de cada um, a tragédia vivificante. Mas

Macabéa só sabia que não podia ver sangue, o resto fui eu que pensei. Estou me

interessando terrivelmente por fatos: fatos são pedras duras. Não há como fugir. Fatos

são palavras ditas pelo mundo.

Bem.

Diante da súbita ajuda, Macabéa, que nunca se lembrava de pedir, pediu licença

ao chefe inventando dor de dente e aceitou o dinheiro emprestado que nem sabia quando

ia devolver. Essa audácia lhe deu um inesperado ânimo para audácia maior (explosão):

como o dinheiro era emprestado, ela raciocinou tortamente que não era dela e então

podia gastá-lo. Assim pela primeira vez na vida tomou um táxi e foi para Olaria. Desconfio

que ousou tanto por desespero, embora não soubesse que estava desesperada, é que

estava gasta até a última lona, a boca a se colar no chão.

Não foi difícil achar o endereço da madama Carlota e essa facilidade lhe pareceu

bom sinal. O apartamento térreo ficava na esquina de um beco e entre as pedras do chão

crescia capim - ela o notou porque sempre notava o que era pequeno e insignificante.

Pensou vagamente enquanto tocava a campainha da porta: capim é tão fácil e simples.

Tinha pensamentos gratuitos e soltos porque embora à toa possuía muita liberdade

interior.

A própria madama Carlota atendeu-a, olhou-a com naturalidade e disse:

– O meu guia já tinha me avisado que você vinha me ver, minha queridinha. Como

é mesmo o seu nome? Ah, é? É muito lindo. Entre, meu benzinho. Tenho uma cliente na

salinha dos fundos, você espera aqui. Aceita um cafezinho, minha florzinha?

Macabéa sentou-se um pouco assustada porque faltavam-lhe antecedentes de

tanto carinho. E bebeu com cuidado pela própria frágil vida, o café frio e quase sem

açúcar. Enquanto isso olhava com admiração e respeito a sala onde estava. Lá tudo era

de luxo. Matéria plástica amarela nas poltronas e sofás. E até flores de plástico. Plástico

era o máximo. Estava boquiaberta.

Afinal saiu dos fundos da casa uma moça com olhos muito vermelhos e madama

Carlota mandou Macabéa entrar. (Como é chato lidar com fatos, o cotidiano me aniquila,

estou com preguiça de escrever esta história que é um desabafo apenas. Vejo que

escrevo aquém e além de mim. Não me responsabilizo pelo que agora escrevo).

Continuemos, pois, embora com esforço: madama Carlota era enxundiosa, pintava

a boquinha rechonchuda com vermelho vivo e punha nas faces oleosas duas rodelas de

ruge brilhoso. Parecia um bonecão de louça meio quebrado. (Vejo que não dá para

aprofundar esta história. Descrever me cansa.)

– Não tenha medo de mim, sua coisinha engraçadinha. Porque quem está ao meu

lado, está no mesmo instante ao lado de Jesus.

E apontou o quadro colorido onde havia exposto em vermelho e dourado o coração

de Cristo.

– Eu sou fã de Jesus. Sou doidinha por Ele. Ele sempre me ajudou. Olha, quando

eu era mais moça tinha bastante categoria para levar vida fácil de mulher. E era fácil

mesmo, graças a Deus. Depois, quando eu já não valia muito no mercado, Jesus sem

29 mais nem menos arranjou um jeito de eu fazer sociedade com uma coleguinha e abrimos

uma casa de mulheres. Aí eu ganhei dinheiro e pude comprar este apartamentozinho

térreo. Larguei a casa de mulheres porque era difícil tomar conta de tantas moças que só

faziam era querer

me roubar. Você está interessada no que eu digo?

– Muito.

– Pois faz bem porque eu não minto. Seja também fã de Jesus porque o Salvador

salva mesmo. Olhe, a polícia não deixa pôr cartas, acha que estou explorando os outros,

mas, como eu lhe disse, nem a polícia consegue desbancar Jesus. Você notou que Ele

até me conseguiu dinheiro para ter mobília de grã-fino?

– Sim senhora.

– Ah, então você também acha, não é? Pelo que vejo você: é inteligente, ainda

bem, porque a inteligência me salvou.

Madama Carlota enquanto falava tirava de uma caixa aberta um bombom atrás do

outro e ia enchendo a boca pequena. Não ofereceu nenhum a Macabéa. Esta, que, como

eu disse, tinha tendência a notar coisas pequenas, percebeu que dentro de cada

bombom mordido havia um líquido grosso. Não cobiçou o bombom pois aprendera que as

coisas são dos outros.

– Eu era pobre, comia mal, não tinha roupas boas. Então caí na vida. E gostei

porque sou uma pessoa muito carinhosa, tinha carinho por todos os homens. Além do

mais, na zona era divertido porque havia muita conversa entre as coleguinhas. Nos

éramos muito unidas e só de vez em quando eu me atracava com uma. Mas isso também

era bom, porque eu era muito forte e gostava de bater, de puxar cabelos e morder. Por

falar em morder, você não pode imaginar que dentes lindos eu tinha; todos branquinhos e

brilhantes. Mas se estragaram tanto que hoje uso dentadura postiça. Você acha que se

nota que são postiços?

– Não senhora.

– Olhe, eu era muito asseada e não pegava doença ruim. Só uma vez me caiu

uma sífilis mas a penicilina me curou. Eu era mais tolerante do que as outras porque sou

bondosa e afinal estava dando o que era meu. Eu tinha um homem de quem eu gostava

de verdade e que eu sustentava porque ele era fino e não queria se gastar em trabalho

nenhum. Ele era o meu luxo e eu até apanhava dele. Quando ele me dava uma surra eu

via que ele gostava de mim, eu gostava de apanhar. Com ele era amor, com os outros eu

trabalhava. Depois que ele desapareceu, eu, para não sofrer, me divertia amando mulher.

O carinho de mulher é muito bom mesmo, eu até lhe aconselho porque você é delicada

demais para suportar a brutalidade dos homens e se você conseguir uma mulher vai ver

como é gostoso, entre mulheres o carinho é muito mais fino. Você tem chance de ter uma

mulher?

– Não senhora.

– É que também você nem se enfeita. Quem não se enfeita, por si mesma se

enjeita. Ai que saudades da zona! Eu peguei o melhor tempo do Mangue que era

freqüentado por verdadeiros cavalheiros. Além do preço fixo, eu muitas vezes ganhava

gorjeta. Ouvi dizer que o Mangue está acabando, que a zona agora só tem uma meia

dúzia de casas. Em meu tempo havia umas duzentas. Eu ficava em pé encostada na

porta vestindo só calcinha e sutiã de renda transparente. Depois, quando eu já estava

ficando muito gorda e perdendo os dentes, é que me tornei caftina. Você sabe o que quer

dizer caftina? Eu uso essa palavra porque nunca tive medo de palavras. Tem gente que

se assusta com o nome das coisas. Vocezinha tem medo de palavras, benzinho?

– Tenho, sim senhora.

– Então vou me cuidar para não escapulir nenhum palavrão, fique sossegada. Ouvi

dizer que o Mangue tem um cheiro insuportável. No meu tempo a gente punha incenso

queimando para dar um ar limpo na casa. Até tinha cheiro de igreja. E tudo era muito

respeitoso e com muita religião. Quando eu era mulher-dama já ia juntando meu

dinheirinho, dando porcentagem à chefa, é claro. De vez em quando havia tiros mas nada

30 comigo. Minha florzinha, estou te aborrecendo com minha história? Ah, não? Você tem

paciência de esperar pelas cartas?

– Tenho, sim senhora.

Então madama Carlota contou-lhe que lá no Mangue, no seu cubículo, havia

enfeites lindos nas paredes.

– Você sabe, meu amor, que cheiro de homem é bom? Faz bem à saúde. Você já

sentiu cheiro de homem?

– Não senhora.

Finalmente, depois de lamber os dedos, madama Carlota mandou-a cortar as

cartas com a mão esquerda, ouviu minha adoradinha?

Macabéa separou um monte com a mão trêmula: pela primeira vez ia ter um

destino. Madama Carlota (explosão) era um ponto alto na sua existência. Era o vórtice de

sua vida e esta se afunilara toda para desembocar na grande dama cujo ruge brilhante

dava-lhe à pele arregalou os olhos.

– Mas, Macabeazinha, que vida horrível a sua! Que meu amigo Jesus tenha dó de

você, filhinha! Mas que horror!

Macabéa empalideceu: nunca lhe ocorrera que sua vida fora tão ruim.

Madama acertou tudo sobre o seu passado, até lhe disse que ela mal conhecera

pai e mãe e que fora criada por uma parente muito madrasta má. Macabéa espantou-se

com a revelação: até agora sempre julgara que o que a tia lhe fizera era educá-la para

que ela se tornasse uma moça mais fina. Madama acrescentou:

– Quanto ao presente, queridinha, está horrível também. Você vai perder o

emprego e já perdeu o namorado, coitada de vocezinha. Se não puder, não me pague a

consulta, sou madama de recursos. Macabéa, pouco habituada a receber de graça,

recusou a dádiva mas com o coração todo grato.

– E eis que (explosão) de repente aconteceu: o rosto da madama se acendeu todo

iluminado:

– Macabéa! Tenho grandes notícias para lhe dar! Preste atenção, minha flor,

porque é de maior importância o que vou lhe dizer. É coisa muito séria e muito alegre:

sua vida vai mudar completamente! E digo mais: vai mudar a partir do momento em que

você sair da minha casa! Você vai se sentir outra. Fique sabendo, minha florzinha, que

até o seu namorado vai voltar e propor casamento, ele está arrependido! E seu chefe vai

lhe avisar que pensou melhor e não vai mais lhe despedir.

Macabéa nunca tinha tido coragem de ter esperança.

Mas agora ouvia a madama como se ouvisse uma trombeta vinda dos céus -

enquanto suportava uma trombeta vinda dos céus - Enquanto suportava uma forte

taquicardia. Madama tinha razão: Jesus enfim prestava atenção nela. Seus olhos

estavam arregalados por uma súbita voracidade pelo futuro (explosão). E eu também

estou com esperança enfim.

– E tem mais! Um dinheiro grande vai lhe entrar pela porta adentro em horas da

noite trazido por um homem estrangeiro. Você conhece algum estrangeiro?

– Não senhora - disse Macabéa já desanimando.

– Pois vai conhecer. Ele é alourado e tem olhos azuis ou verde ou castanhos ou

pretos. E se não fosse porque você gosta de seu ex-namorado, esse gringo ia namorar

você. Não! Não! Não! Agora estou vendo outra coisa (explosão) e apesar de não ver

muito claro estou também ouvindo a voz de meu guia: esse estrangeiro parece se chamar

Hans, e é ele quem vai se casar com você! Ele tem muito dinheiro, todos os gringos são

ricos. Se não me engano, e nunca me engano, ele vai lhe dar muito amor e você, minha

enjeitadinha, vai se vestir com veludo e cetim e até casaco de pele vai ganhar!

Macabéa começou (explosão) a tremilicar toda por causa do lado penoso que há

na excessiva felicidade. Só lhe ocorreu dizer:

– Mas casaco de pele não precisa no calor do Rio...

– Pois vai ter só para se enfeitar. Faz tempo não boto cartas tão boas. E sou

sempre sincera: por exemplo, acabei de ter a franqueza de dizer para aquela moça que

31 saiu daqui que ela ia ser atropelada, ela até chorou muito, viu os olhos avermelhados

dela? E agora vou lhe dar um feitiço que você deve guardar dentro deste sutiã que quase

não tem seio, coitada, bem em contacto com a pele. Você não tem busto mas vai

engordar e vai ganhar corpo. Enquanto você não engordar, ponha dentro do sutiã

chumaços de algodão para fingir que tem. Olha, minha queridinha, esse feitiço também

sou obrigada por Jesus a lhe cobrar porque todo o dinheiro que eu recebo das cartas eu

dou para um asilo de crianças, Mas se não puder, não pague, só venha e pagar quando

tudo acontecer.

– Não, eu lhe pago, a senhora acertou tudo, a senhora é...

Estava meio bêbada, não sabia o que pensava, parecia que lhe tinham dado um

forte cascudo na cabeça de ralos cabelos, sentia-se tão desorientada como se lhe tivesse

acontecido uma infidelidade.

Sobretudo estava conhecendo pela primeira vez o que os outros chamavam de

paixão: estava apaixonada por Hans.

– E que é que eu faço para ter mais cabelo? – ousou perguntar porque já se sentia

outra.

– Você está querendo demais. Mas está bem: lave a cabeça com sabão Aristolino,

não use sabão amarelo em pedra. Esse conselho eu não cobro.

Até isso? (explosão) bateu-lhe o coração, até mais cabelo? Esquecera Olímpico e

só pensava no gringo: era sorte demais pegar homem de olhos azuis ou verdes ou

castanhos ou pretos, não havia como errar, era vasto o campo das possibilidades.

– E agora - disse a madama - você vá embora para encontrar seu maravilhoso

destino. E mesmo porque tem outra freguesa esperando, demorei demais com você, meu

anjinho, mas valeu a pena! Num súbito ímpeto (explosão) de vivo impulso Macabéa, entre

feroz e desajeitada, deu um estalado beijo no rosto da madama. E sentiu de novo que

sua vida já estava melhorando ali mesmo: pois era bom beijar. Quando ela era pequena,

como não tinha a quem beijar, beijava a parede. Ao acariciar ela se acariciava si própria.

Madama Carlota havia acertado tudo. Macabéa estava espantada. Só então vira

que sua vida era uma miséria. Teve vontade de chorar ao ver o seu lado oposto, ela que,

como disse, até então se julgava feliz.

Saiu da casa da cartomante aos tropeços e parou no beco escurecido pelo

crepúsculo - crepúsculo que é hora de ninguém. Mas ela de olhos ofuscados como se o

último final da tarde fosse mancha de sangue e ouro quase negro. Tanta riqueza de

atmosfera a recebeu e o primeiro esgar da noite que, sim, sim, era funda e faustosa.

Macabéa ficou um pouco aturdida sem saber se atravessaria a rua pois sua vida já

estava mudada. E mudada por palavras - desde Moisés se sabe que a palavra é divina.

Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro. Sentia

em si uma esperança tão violenta como jamais sentira tamanho desespero. Se ela não

era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho. Assim como

havia sentença de morte, a cartomante lhe decretara sentença de vida. Tudo de repente

era muito e muito e tão amplo que ela sentiu vontade de chorar. Mas não chorou: seus

olhos faiscavam como o sol que morria.

Então ao dar o passo de descida da calçada para atravessar a rua, o Destino

(explosão) sussurrou veloz e guloso: é agora é já, chegou a minha vez!

E enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a - e neste mesmo

instante em algum único lugar do mundo um cavalo como resposta empinou-se em

gargalhada de relincho.

Macabéa ao cair ainda teve tempo de ver, antes que o carro fugisse, que já

começavam a ser cumpridas as predições de madama Carlota, pois o carro era de alto

luxo. Sua queda não era nada, pensou ela, apenas um empurrão. Batera com a cabeça

na quina da calçada e ficara caída, a cara mansamente voltada para a sarjeta. E da

cabeça um fio de sangue inesperadamente vermelho e rico. O que queria dizer que

apesar de tudo ela pertencia a uma resistente raça anã teimosa que um dia vai talvez

reivindicar o direito ao grito.

32 (Eu ainda poderia voltar atrás em retorno aos minutos passados e recomeçar com

alegria no ponto em que Macabéa estava de pé na calçada - mas não depende de mim

dizer que o homem alourado e estrangeiro a olhasse. É que fui longe demais e já não

posso mais retroceder. Ainda bem que pelo menos não falei e nem falarei em morte e sim

apenas um atropelamento.)

Ficou inerme no canto da rua, talvez descansando das emoções, e viu entre as

pedras do esgoto o ralo capim de um verde da mais tenra esperança humana. Hoje,

pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.

(A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A verdade é irreconhecível.

Portanto não existe? Não, para os homens não existe.)

Voltando ao capim. Para tal exígua criatura chamada Macabéa a grande natureza

se dava apenas em forma de capim de sarjeta - se lhe fosse dado o mar grosso ou picos

altos de montanhas, sua alma, ainda mais virgem que o corpo, se alucinaria e explodir-se-

lhe-ia o organismo, braços pra cá, intestino para lá, cabeça rolando redonda e oca a seus

pés - como se desmonta um manequim de cera.

Prestou de repente um pouco de atenção para si mesma. O que estava

acontecendo era um surdo terremoto? Tinha-se aberto em fendas a terra de Alagoas.

Fixava, só por fixar, o capim. Capim na grande Cidade do Rio de Janeiro. À toa. Quem

sabe se Macabéa já teria alguma vez sentido que também ela era à-toa na cidade

inconquistável. O Destino havia escolhido para ela um beco no escuro e uma sarjeta. Ela

sofria? Acho que sim. Como uma galinha de pescoço mal cortado que corre espavorida

pingando sangue. Só que a galinha foge - como se foge da dor - em cacarejos

apavorados. E Macabéa lutava muda.

Vou fazer o possível para que ela não morra. Mas que vontade de adormecê-la e

de eu mesmo ir para a cama dormir.

Então começou levemente a garoar. Olímpico tinha razão: ela só sabia mesmo era

chover. Os finos fios de água gelada aos poucos empapavam-lhe a roupa e isso não era

confortável.

Pergunto: toda história que já se escreveu no mundo é história de aflições?

Algumas pessoas brotaram no beco não se sabe de onde e haviam se agrupado

em torno de Macabéa sem nada fazer assim como antes pessoas nada haviam feito por

ela, só que agora pelo menos a espiavam, o que lhe dava uma existência.

(Mas quem sou eu para censurar os culpados? O pior é que preciso perdoá-los. É

necessário chegar a tal nada que indiferentemente se ame ou não se ame o criminoso

que nos mata. Mas não estou seguro de mim mesmo: preciso perguntar, embora não

saiba a quem, se devo mesmo amar aquele que me trucida e perguntar quem de vós me

trucida. E minha vida, mais forte do que eu, responde que quer porque quer vingança e

responde que devo lutar como quem se afoga, mesmo que eu morra depois. Se assim é,

que assim seja).

Macabéa por acaso vai morrer? Como posso saber? E nem as pessoas ali

presentes sabiam. Embora por via das dúvidas algum vizinho tivesse pousado junto do

corpo uma vela acesa. O luxo da rica flama parecia cantar glória.

(Escrevo sobre o mínimo parco enfeitando-o com púrpura, jóias e esplendor. É

assim que se escreve? Não, não é acumulando e sim desnudando. Mas tenho medo da

nudez, pois ela é a palavra final.)

Enquanto isso, Macabéa no chão parecia se tornar cada vez mais uma Macabéa,

como se chegasse a si mesma.

Este é um melodrama? O que sei é que melodrama era o ápice de sua vida, todas

as vidas são uma arte e a dela tendia para o grande choro insopitável como chuva e raios.

Apareceu portanto um homem magro de paletó puído tocando violino na esquina.

Devo explicar que este homem eu o vi uma vez ao anoitecer quando eu era menino em

Recife e o som espichado e agudo sublinhava com uma linha dourada o mistério da rua

escura. Junto do homem esquálido havia uma latinha de zinco onde barulhavam secas as

moedas dos que o ouviam com gratidão por ele lhes planger a vida. Só agora entendo e

33 só agora brotou-se-me o sentido secreto: o violino é um aviso. Sei que quando eu morrer

vou ouvir o violino do homem e pedirei música, música, música.

Macabéa, Ave Maria, cheia de graça, terra serena da promissão, terra do perdão,

tem que chegar o tempo, ora pro nóbis, e eu me uso como forma de conhecimento. Eu te

conheço até o osso por intermédio de uma encantação que vem de mim para ti. Espraiar-

se selvagemente e no entanto atrás de tudo pulsa uma geometria inflexível. Macabéa

lembrou-se do cais do porto. O cais chegava ao coração de sua vida.

Macabéa pedir perdão? Porque sempre se pede. Por quê? Resposta: é assim

porque assim é. Sempre foi? Sempre será. E se não foi? Mas eu estou dizendo que é.

Pois.

Via-se perfeitamente que estava viva pelo piscar constante dos olhos grandes, pelo

peito magro que se levantava e abaixava em respiração talvez difícil. Mas quem sabe se

ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que a pessoa está

precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim,

substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num

profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca-a-boca na agonia do prazer que é

morte. Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição.

Acho com alegria que ainda não chegou a hora de estrela de cinema de Macabéa

morrer. Pelo menos ainda não consigo adivinhar se lhe acontece o homem louro e

estrangeiro. Rezem por ela e que todos interrompam o que estão fazendo para soprar-lhe

vida, pois Macabéa está por enquanto solta no acaso como a porta balançando ao vento

no infinito. Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas

quero o pior: a vida. Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é

bom. A vida é um soco no estômago.

Por enquanto Macabéa não passava de um vago sentimento nos paralelepípedos

sujos. Eu poderia deixá-la na rua e simplesmente não acabar a história. Mas não: irei até

onde o ar termina, irei até onde a grande ventania se solta uivando, irei até onde o vácuo

faz uma curva, irei aonde meu fôlego me levar. Meu fôlego me leva a Deus? Estão tão

puro que nada sei. Só uma coisa eu sei: não preciso ter piedade de Deus. Ou preciso?

Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal.

Grotesca como sempre fora. Aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande

abraço. Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era uma maldita e não

sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou,

eu sou, eu sou. Quem era, é que não sabia. Fora buscar no próprio profundo e negro

âmago de si mesma o sopro de vida que Deus nos dá.

Então - ali deitada - teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o

abraço da morte. A morte que é nesta história o meu personagem predileto. Iria ela dar

adeus a si mesma? Acho que ela não vai morrer porque tem tanta vontade de viver. E

havia certa sensualidade no modo como se encolhera. Ou é porque a pré-morte se parece

com a intensa ânsia sensual? É que o rosto dela lembrava um esgar de desejo. As coisas

são sempre vésperas e se ela não morre agora está como nós na véspera de morrer,

perdoai-me lembrar-vos porque quanto a mim não me perdôo a clarividência.

Um gosto suave, arrepiante, gélido e agudo como no amor. Seria esta a graça a

que vós chamais de Deus? Sim? Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher.

Não, não era morte pois não a quero para a moça: só um atropelamento que não

significava sequer desastre. Seu esforço de viver parecia uma coisa que, se nunca

experimentara, virgem que era, ao menos intuíra, pois só agora entendia que mulher

nasce mulher desde o primeiro vagido. O destino de uma mulher é ser mulher. Intuíra o

instante quase dolorido e esfuziante do desmaio do amor. Sim, doloroso reflorescimento

tão difícil que ela empregava nele o corpo e a outra coisa que vós chamais de alma e que

eu chamo - o quê?

Aí Macabéa disse uma frase que nenhum dos transeuntes entendeu. Disse bem

pronunciado e claro:

- Quanto ao futuro.

34 é assim. Nesta hora exata Macabéa sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou,

queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.

O que é que estou vendo agora e que me assusta? Vejo que ela vomitou um pouco

de sangue, vasto espasmo, enfim o âmago tocando no âmago: vitória!

E então - então o súbito grito estertorado de uma gaivota, de repente a águia voraz

erguendo para os altos ares a ovelha tenra, o macio gato estraçalhando um rato sujo e

qualquer, a vida come a vida.

Até tu, Brutus?!

Sim, foi este o modo como eu quis anunciar que - que Macabéa morreu. Vencera o

Príncipe das Trevas. Enfim a coroação.

Qual foi a verdade de minha Maca? Basta descobrir a verdade que ela logo já não

é mais: passou o momento. Pergunto: o que é? Resposta: não é.

Mas que não se lamentem os mortos: eles sabem o que fazem. Eu estive na terra

dos mortos e depois do terror tão negro ressurgi em perdão. Sou inocente! Não me

consumam! Não sou vendável! Ai de mim, todo na perdição e é como se a grande culpa

fosse minha. Quero que me lavem as mãos e os pés e depois - depois que os untem com

óleos santos de tanto perfume. Ah que vontade de alegria. Estou agora me esforçando

para rir em grande gargalhada. Mas não sei por que não rio. A morte é um encontro

consigo. Deitada, morta, era tão grande como um cavalo morto. O melhor negócio é ainda

o seguinte: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso.

Macabéa me matou.

Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante,

passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça. Desculpai-me esta morte. É que

não pude evitá-la, a gente aceita tudo porque já beijou a parede. Mas eis que de repente

sinto o meu último esgar de revolta e uivo: o morticínio dos pombos!!! Viver é luxo.

Pronto, passou.

Morta, os sinos badalavam mas sem que seus bronzes lhes dessem som. Agora

entendo esta história. Ela é animinência que há nos sinos que quase-quase badalam.

A grandeza de cada um.

Silêncio.

Se um dia Deus vier à terra haverá silêncio grande.

O silêncio é tal que nem o pensamento pensa.

O final foi bastante grandiloqüente para a vossa necessidade? Morrendo ela virou

ar. Ar enérgico? Não sei. Morreu em um instante. O instante é aquele átimo de tempo em

que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca mais e

depois toca de novo. Etc., etc., etc. No fundo ela não passara de uma caixinha de música

meio desafinada.

Eu vos pergunto:

- Qual é o peso da luz?

E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora

me lembrei que a gente morre.

Mas - mas eu também?!

Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Sim.