A arte do Brasil
É já corriqueira a afirmação de que, em termos de arte, ao menos nos países
que compõem o atual sul-global, o conflito se estabeleceria entre repostas locais
dadas a problemas globais. Nunca antes a noção de escala parece ter assumido
posição tão viva. Ao passo que o “localismo”, outrora tornado pleito afirmativo
pelas margens do Ocidente, logo se transmutara em exotismo e estranhamento
– por vezes matizado em aguadas antropológicas –, sua utilização ainda parece
habitar um ponto pacífico nos debates sobre arte no âmbito nacional. Não à toa,
a alcunha arte brasileira ainda preserva posição destacada quando se pretende
abordar a arte que fora produzida no Brasil.
Antes fosse o problema apenas de
ordem nominalista; o adjetivo tendo sido imantado pela substantivação apre-
senta, se não um topos automatizado e acrítico, ao menos a reificação de uma
chave de entendimento contestável.
Arte brasileira, mais que uma tentativa de situar a produção, ou mesmo
afirmá-la a despeito de sua qualidade, qual seja o parâmetro utilizado, parece
configurar o índice mais flagrante de uma doação de sentido ao que, em si mesmo,
não possui sentido algum. Isto é, como ferramenta de uma desenfreada histori-
cização mecânica dos produtos culturais produzidos em território nacional, onde
arte é, quando muito, entendida como sujeito frasal impreciso, apenas capaz de
indicar produtos culturais desprovidos de finalidade prática. Soma-se à natura-
lização de uma concepção vacilante de arte que, ao mesmo tempo, sorve tudo
a sua volta, um desejo de que os fatos de cultura – se é que as obras de arte
a isso se reduzem – sejam englobados numa marcha ordenada de sucessões
enredadas. Portanto, apesar de ser um esforço recente, a tentativa de estabe-
lecer um corpus historiográfico à arte produzida no Brasil ou por brasileiros, tal
esforço não foi acompanhado por um efetivo debate crítico sobre questões da
maior importância. Citem-se aqui algumas: o que de fato seria a arte brasileira,
ou mesmo se a alcunha empregada não é arbitrária; qual seria a noção de arte
em jogo; como proceder uma “história da arte brasileira” sem que se pergunte
sobre os critérios de sua formulação.
Ao que parece, duas confusões se superpõem. A primeira, mais grave,
pode-se resumir da seguinte maneira: o artístico, segundo os preceitos até
então formulados na modernidade ocidental, não mais se superpõe ao mera-
mente produzido. Isto é, há que dotar o termo de algum sentido específico,
driblar a mera nomeação autoritária, irrefletida – não teórica por excelência. Seos modos consagrados de o entender já não nos são úteis, cabe a nós refor-
mulá-los, dotar seu uso de alguma precisão, conquanto a mera adjetivação de
um termo (“arte brasileira”) não o torne, como num passe de mágica, apto ou
mesmo operativo. O conceito de arte, tal qual conhecido e aplicado desde a
modernidade, não mais se assemelha à ars latina, muito menos à tékhne grega;1
o trabalho de sua formulação deve anteceder qualquer história que dele se faça.
A segunda confusão, mais corriqueira, entende a atividade historiográfica
como apenas descritiva, ou seja, a afirmação se impõe de tal modo, que a reflexão
se torna aí escusada. Uma história da arte converte-se facilmente em reflexo-
logia, espelhamento de estruturas e superestruturas. A arte se transmuta em
ornamento, e sua problemática é subsumida na apreciação de dados floreados
que acompanham o curso geral da História – entendida como coletivo singular
moderno, o qual Koselleck nos ensinara reconsiderar.
Não é de todo abrupto afirmar que a reflexão teórica sobre arte entre nós,
se não é inexistente, é incontestavelmente escassa. Une-se a isso o fato de que
as artes visuais, em larga medida, obtiveram no Brasil pouca ou quase nenhuma
socialização efetiva. Se na música ou na literatura o quadro é um pouco menos
agravado – excluindo-se as obras de maior complexidade (citem-se Guimarães
Rosa ou a poesia de João Cabral) –, nas artes visuais é notório o vácuo entre
produção e recepção, vácuo esse que se manteria até as grandes exposições
apresentadas desde a década de 1990. Referimo-nos às grandes exposições com
larga divulgação midiática, que transmutaram o universo apartado das artes
visuais em palco publicitário. Ou seja, socialização aí logo se confundiria com
massificação, que opera, quando muito, ao nível do clichê, da anedota. Fato é
que, anteriormente, os únicos momentos em que há uma tentativa de sua socia-
lização parecem concentrados no universo religioso colonial, se é que aí conse-
guiríamos formular alguma noção de arte com os preceitos até então vigentes, e
no modernismo (ou nacional-modernismo), ainda que às vezes sob a forma de uma empolada propaganda de Estado e aparelhamento ideológico.2 É opor-
tuno pontuar que socialização ou, se quisermos, democratização não se confunde
com massificação. O que equivale a dizer que a efetiva socialização de um produto
cultural não se mede tão só em números, mas pela qualidade com que o compar-
tilhamento é efetivado.
Temos então o descortinar de um panorama possível: a situação sucursal
de nosso país, que se vislumbra em aspectos econômicos, sociais e culturais (o
ensaio de Roberto Schwarz (2014), As ideias fora de lugar, serve como um guia
ainda válido); a parca tradição artística, enquanto parte de um vasto campo cultural
que não assistiu a uma socialização efetiva (ainda há pouco ou era inexistente, ou
relegada a uns poucos de nossas tímidas elites); a inépcia de uma crítica que faz
jus aos entraves de nossa precária socialização da arte; por fim, e não menos
previsível, uma domesticação da reflexão histórica, fazendo com que um tal
discurso não passe de cândida discursividade descritivo-afirmativa.
Vejamos alguns exemplos para que fique aclarado o que acima pode ainda
soar como embuste. Tomemos de início um texto de Manuel Araújo Porto-Alegre,
Litteratura e artes no Brasil, escrito em 1834 e publicado no Correio Official:
Dous seculos se passárão sem que as Artes dessem hum passo fóra
dos Conventos; o Governo Portuguez as confinava nesses recintos.
Vastos Templos se desenhárão e se construírão em Portugal, que depois
se transportárão à America pedra por pedra; tudo chegava numerado; o
Brasileiro nada mais podia fazer do que juntar as peças; era lhe prohibido
applicar as suas faculdades entelectuais às Artes Mechanicas ainda as
mais grosseiras (Porto-Alegre, 1834, p. 2-3).
A constatação, ainda que ora soe reiterativa, era naquele momento inau-
gural: próximo à independência, Porto-Alegre inscreve em seu argumento o traço
fundamental dos discursos sobre arte que perpassariam todo o século 19, quiçá até meados do seguinte: a parca tradição artística estabelecida no Brasil referir-se-ia
ao direcionamento dado a sua colonização. Distinto das demais colônias americanas,
no Brasil a ação colonizadora não estimulava, senão que demovia os colonos do
ímpeto construtivo – fosse no âmbito da produção ou da consolidação de instituições
culturais e educativas. O “brasileiro” de Porto-Alegre é uma criatura tolhida, donde
muito se pode recuperar seu ímpeto, mas não avaliar a obra. O projeto arcaizante
do império português realizado em suas colônias ultramarinas é já ponto pacífico.
O que nos interessa demonstrar é como a constituição de um discurso sobre
as artes visuais no Brasil é intimamente perpassada por uma agência ativa de
contestação dos constrangimentos sociopolíticos nacionais. Isto é, não que os
discursos sobre arte pudessem ser dissociados de um campo amplo de relações,
mas sim que com eles o que se buscava era a purgação, ou mesmo a saída, de
uma situação precária.
Quando da fundação da Academia Imperial de Belas-Artes, em 1816, o
passado colonial brasileiro retornava sob a forma de um fantasma que teria de
se transmutar em legado, em raiz do país; as bases intelectuais de seu povo
não tardariam a aparecer. A arte, quando muito, deveria ser entendida como
expressão afirmativa de um povo, alegoria de suas agruras, contestações
e, sobretudo, o estandarte de sua síntese – a formulação de um Varnhagen
é exemplo mister, ainda que num campo de incidência mais amplo.3 É ainda
de Porto-Alegre o uso inaugural da alcunha escola brasileira, formulação alta-
mente reiterada nas décadas seguintes do século 19 – de clara inspiração em
Storia Pittorica dell’Italia (1792), do padre Luigi Lanzi. A escola brasileira fora
um arremedo discursivo capaz de nomear a produção pictórica antecedente à
fundação da Academia. Junto à coleção didática, extremamente útil ao sistema
de ensino das academias de arte até o século 20, sobejava um restolho informe
de pinturas coloniais que precisavam ser agrupadas nos termos da lógica de
uma pinacoteca oitocentista – dividida especialmente por escolas geográficas
(veneziana, florentina, romana etc.). Porto-Alegre formula a ideia dos nossos
“primitivos” enquanto exerce uma crítica precária num vazio discursivo assom-
broso. Estava assim iniciada a crítica de arte no Brasil e, por conseguinte, a história da arte – que até o fim do século 19 não passava de um compilado de textos
jornalísticos, artigos em periódicos e parcas textualizações advindas do ensino
na academia.
O adjetivo brasileiro assumiria contornos ainda mais claros no texto do
vereador marianense Rodrigo José Ferreira Bretas. Em Traços biográficos rela-
tivos ao finado Antônio Francisco Lisboa, publicado no Correio Official de Minas
em 1858, Bretas esboça um epitáfio glorioso ao ainda desconhecido artista, que
logo se tornaria o célebre Aleijadinho. “Antônio Francisco era pardo escuro”,
assim Bretas (1951, p. 23) inicia a descrição fisionômica e corpórea do homem
que a história, até então oral, havia logrado ser um vultuoso escultor e projetista
nas Minas setecentistas. O vereador lança as sementes do que seria uma emenda
constante ao discurso sobre arte no Brasil: sublinhar o traço biográfico-racial
como forma de positivar uma produção exclusa da ambiência dos centros refe-
renciais. Ainda que Bretas e Porto-Alegre se achem abissalmente afastados em
múltiplos aspectos, a insistência no éthos como chave explicativa os aproxima
no bojo de uma tradição deficitária. O trauma colonial, tão logo colocado, não
surtira um efetivo resultado no universo da práxis: o Brasil continuara um país
agrário, escravista e sem horizontes de melhora efetiva. A miscigenação racial
era mais um drible discursivo que efetivamente um projeto de ação sociopolítico.
Pode-se a isso adicionar o fato de que a postulada “cor local” era também um
modo de justificação da longa penúria do povo brasileiro, donde o pouco que se
encontrava feito poderia assim assumir tons vibrantes de resistência.
A institucionalização do ensino acadêmico de arte no Brasil adicionaria
ainda outra complicação. Passa-se de uma informe produção local, destinada a
fins estritamente religiosos e uns poucos políticos, a uma institucionalização do
ensino sem que para isso houvesse mínimas estruturas de demanda, crítica e
recepção. A academia é instaurada por um propósito de civilização, mas, note-se,
não se trata aqui de um projeto civilizatório efetivo, mas um puro fachadismo
civilizatório. O ensino regular de arte tinha como intento, assim como a fundação
de bibliotecas e jardins, diminuir o estranhamento de uma corte abatida num
território de exploração e degredo. Ou seja, o ímpeto inicial nem sequer tinha
intenções honestas, senão que apenas pretendia maquiar as agruras de três
séculos de puro esquecimento. Como não havia na metrópole lusitana um sistema
artístico propriamente estabelecido – cabe o ressalte da parca tradição portuguesa,caso comparada aos demais países do continente europeu4 –, coube a um grupo
de franceses estabelecer aqui as diretrizes de um sistema de ensino e produção
artística. Se, entretanto, a produção, ainda que de qualidade discutível, torna-se
regular desde a segunda década do século 19, a crítica e a teorização não se
consolidaram tão cedo. A academia, que já surgira sob os auspícios do sistema
artístico moderno e se mantinha informada em larga medida do que se passava
nos salons franceses – tanto por meio da vinda de artistas estrangeiros quanto
pelos prêmios de viagem –, não encontrava correspondente num corpo social
capaz de efetivar a produção artística. Isso é facilmente presumível pelo amado-
rismo com que se estabelecera a crítica jornalista e, sobretudo, pelo tipo de
encomenda e recepção que ainda aqui se efetuava: encomendas oficiais destinadas
ao aparato imagético do poder político e encomendas de tipo “decorativo” para
suprir a necessidade de uma elite incipiente que apenas intentava a distinção pelo
luxo. Não é preciso descrever aqui a saga da alfabetização massiva no Brasil, o que
só viria a ocorrer nas últimas décadas do século 20.
Entre a independência do Brasil e a proclamação da república, tendo entre
elas a tardíssima abolição da escravatura, pouco daquilo que fora brevemente
descrito assistira a alguma mudança efetiva. Da inteligência brasileira tolhida de
Porto-Alegre, passando pelo “mulato genial” de Bretas, ao nativismo adocicado
empreitado pela pintura acadêmica em plena consonância com o universo
literário, os discursos sobre as artes seguiam sem nenhum objetivo de teorizar a
respeito de seu universo – ou da falta dele. Estavam, ao fim e ao cabo, interessados
em formular um Brasil, um povo seu. Ou, como posto por Sílvio Romero (1910,
p.103), sanar esse “desconhecimento de nós mesmos”.
A pintura oficial à maneira de um Jacques Louis David ou Delacroix, assim
como a simulação romântica do indianismo, que de local talvez só tivesse o
título, se mantinha à distância de suspeitas de ordem pictórica – por mais que
o romantismo internacional fosse perpassado pelo reclame da nacionalidade,
havia sempre uma margem de dissenso e, especialmente, um interesse latentepelo tratamento do significante. Figuração e assunto se mantinham dissociados
numa tentativa de atualização universal, aqui quase sempre amistosa ao panfle-
tarismo local. Se o problema do pictórico porventura aparece num discurso
sobre pintura, esse é ocioso pois não se presta a formular um conhecimento de
nós. Em suma, desde os efetivos trânsitos culturais impostos pelas condições
mundializadas já estabelecidas no século 19, o discurso sobre arte entre nós
não é mais que forma de explicar o hiato entre matrizes culturais e as bordas do
Ocidente, sem que com isso possa se furtar a tematizar, sobretudo, o brasileiro.
Nem mesmo um Gonzaga-Duque, que entre seus coetâneos ressalta por sua
qualidade, não se excluiria das diretrizes dominantes ao imantar todo o discurso
com uma essencialidade nacionalista. Junto a Ângelo Agostini e Felix Ferreira,
críticos em atividade no fim do século 19, não cessa de confundir o problema
de ordem artística daquele de ordem político-social. Não que se deva presumir
uma dissociação entre eles, mas a plena concomitância revela que a reflexão
ainda era precária. Em A arte brasileira, além de perpetrar mesmo já no título
a clave de sua interpretação, Gonzaga-Duque (1888, p. 161) não se abstém de
oferecer à Batalha do Avaí, de Pedro Américo, a outorga de “maior obra de arte
que o Brasil possui”. O título do livro é em si sintomático: revela que o autor não
distinguira aí, e nem chegara a fazê-lo, o problema da arte daquele da naciona-
lidade. Ou seja, vê-se em seu texto, se não a consagração de tal clave de enten-
dimento, ao menos a sua reiteração em guinada. Tadeu Chiarelli (2002) chama
atenção para um traço fundamental na exposição de Gonzaga-Duque sobre uma
justificativa dada ao não florescimento exitoso das artes no Brasil. Enquanto sua
elite concentrava-se em fazer de seus filhos bacharéis e políticos, chamadas
por Gonzaga-Duque de profissões letradas, as artes se mantinham relegadas às
classes menos favorecidas, “considerada até há pouco um desprezível ofício de
negros e mulatos” (Gonzaga-Duque apud Chiarelli, 2002, p. 14). Isto é, o infor-
túnio das artes se justificava pela mazela brasileira e pela proveniência pouco
abastada de seus artistas; entretanto, a qualidade da arte aqui produzida com
isso também era justificada. A generalização do raciocínio causa-efeito se torna
tão automatizada, que uma mesma causa pode ser manobrada para justificar
efeitos diametralmente opostos. Conclui-se da fala de Gonzaga-Duque que nem
mesmo as classes médias e abastadas de nossa sociedade tomavam o artístico
como um campo propriamente considerável, ou tão só o faziam quando era preciso enfatizar um brio da civilização tomado de empréstimo – sem que viesse
a constituir uma necessidade efetiva. Do primeiro ao segundo império, da
proclamação da república à chamada primeira república, nada de substancial
parece ter-se modificado. Ressalte-se, não em termos propriamente sociopo-
líticos, mas, sobretudo, em termos de arte e da formulação de um campo seu.
Temos que repetir com Roberto Schwarz (2014, p. 51): “Em consequência, um
latifúndio pouco modificado viu passarem as maneiras barroca, neoclássica,
romântica, naturalista, modernista e outras, que na Europa acompanharam e
refletiram transformações imensas na ordem social”. Não à toa as vanguardas
aqui foram recebidas ainda sob o clima da uma estilística a ser emulada, em que
a figuração deve tampouco ser mais que a conveniência entre o assunto local e a
moda da vez – o que se tornará progressivamente mais evidente no desenrolar
do Estado Novo de Vargas. Nem mesmo o dito realismo francês tivera destino
distinto na aclimatação nacional; vertera-se em fanática pintura de cunho
panfletário. O colono, como escrevera Ricardo Severo (2012, p. 395), “de
tirano passa a vítima, de mártir a herói nacional”; o brasileiro, por conseguinte,
de fantasma passara a mito.5
Tudo isso nos direciona a uma primeira intuição: o fenômeno artístico no
Brasil, além de não possuir um campo próprio, no âmbito de sua crítica, perma-
necia como espaço de purgação dos desacertos de nossa entrada cambaleante
na modernidade. As mazelas sociais e políticas, a incipiência da almejada
nacionalidade forneciam tamanha distração aos críticos, que se tornara aqui
impraticável um campo moderno das artes. Imperava a apriorística de um Brasil,
suas características próprias e inelutáveis. Os pressupostos da contínua liberação
da arte no contexto europeu, por ser aqui inexistentes, não amparavam a ativi-
dade intelectual para que alçasse uma tematização menos constrangida dos
fenômenos artísticos, o que porventura tornaria produção e recepção menos
acanhadas – isto é, não se pleiteia aqui que arte ocupasse um lugar fora do
universo social que a produziu, quando o mínimo era apenas lhe conferir um setor
mais ou menos específico (veja, não é o pleito por autonomia que aqui se faz).
Aracy Amaral (1979, p. 15) inicia sua introdução ao livro Artes plásticas na
Semana de 22 oferecendo um paralelo sintomático: “[a semana] representa um
marco na arte contemporânea do Brasil, comparável à chegada da Missão Francesa
ao Rio de Janeiro no século passado ou, no século XVIII, à obra do Aleijadinho”.
A historiadora tenta situar o feito modernista entre o que se encontrava consagrado
pela historiografia como marco de nossa história da arte. Repete, adicionando a
novidade modernista, o esquema esboçado por Porto-Alegre de modo a demonstrar
uma terceira idade da arte brasileira, que se desvelara a partir de 1922 – isto é, um
momento colonial, marcado pelo tolhimento do gênio, seguido de um momento de
independência, em que o gênio brasileiro enfim alçava os meios de sua projeção,
e agora a Semana de 22, uma inclusão do gênio nacional nas malhas do moderno.
As idades da arte brasileira têm até mesmo uma geografia própria.
Incluem-se nela Minas Gerais, o lugar do surto aurífero e centro das atenções
do Setecentos colonial; Rio de Janeiro, feito capital do vice-reino em finais do
século 18, capital do reino a partir de 1808, momento em que se estabelece
na mesma cidade a chamada missão francesa, confirmando-se como grande
centro artístico por todo século 19; por fim São Paulo, endinheirada pela econo-
mia cafeeira, auspiciosa e fértil ao estabelecimento da modernidade econômica
e cultural do país no início do século 20. Isto é, a história da arte no Brasil em
finais dos anos 1970 ainda possuía uma feição mais comemorativa que de fato
analítico-demonstrativa. Justiça seja feita, não fora por falta de empenhos
críticos, mas pela efetiva dissociação entre a atividade crítico-teórica e o
fazer historiográfico. Quem escreve diz o que é, e sobre ele não há dúvida: preci-
samos descobrir o Brasil (!), precisamos celebrar seus feitos.
O poeta e político Ronald de Carvalho (apud Amaral, 1979, p. 226-228) dá
o tom de uma longa tradição discursiva vencedora:
Vão desaparecendo, pouco a pouco, do país, vendidas a vil preço aos
colecionadores americanos e europeus, as mobílias, as joias, as alfaias,
as baixelas, todas as peças da indumentária dos nossos maiores. Vamos
destruindo, assim, a fisionomia do nosso passado, o espólio, pequeninho
mas valioso, que nos foi transmitido pelos antecedentes. [...] No rumo
em que vamos, porém, dificilmente criaremos uma arte própria, nascida
da nossa carne e do nosso espírito, vinda das profundezas do nosso ser.
Enquanto tais causas persistirem, iremos produzindo excelentes
pintores, escultores e arquitetos, mas continuaremos a ser um povo
sem pintura, sem escultura e sem arquitetura.
É mesmo no burburinho da Semana de 22 que uma missão se constitui.
Era necessário ainda descobrir o Brasil, o Brasil do Aleijadinho e de Ataíde, e
junto dele constituir o novo Brasil: misto de celebração nacional e modernização
artística. A figura de Mário de Andrade é fulcral parar o entendimento de um tal
ímpeto – membro central do modernismo, ideólogo de nossa vanguarda e ativo
defensor de um patrimônio nacional. Um novo momento se desponta, e nele ainda
a tematização do Brasil, do Brasil dos brasileiros, tem sua nova aurora. Mas a
efetiva mudança não acontece: as bases de nosso modernismo, aprendidas nos
ateliês europeus, introduzem a máscara da vanguarda em um antigo fantoche.
A crítica, tal é o caso, por exemplo, dos textos de Monteiro Lobato, não passa de
mera polêmica ou beletrismo. A não socialização da pintura da academia, ora
execrada pelo grupo dos modernistas, é substituída por um novo vácuo reflexivo:
a postura afirmativa sobre um translado modernizante artificial unida ao elogio
dos “antigos” – a obra inventiva dos penosos artífices coloniais. É uma bifurcação
que, seja via os discursos comemorativos sobre as artes produzidas na esteira do
modernismo, seja via a consagração dos artífices coloniais (empreitada enca-
beçada pelo Sphan), leva ao mesmo recrudescimento de uma suplementação
identitária.
As décadas de 1930 e 1940, marcadas pela aclimatação de um gosto
modernizante, apresentam, contrariando os valores da vanguarda, uma temati-
zação ostensiva de um ideário sociopolítico, no qual a figuração de ares modernos
não passa de conciliação entre valores retrógrados e modelos da moda. A
crítica de Andre Chastel ao trabalho de Portinari, exposto em Paris por meio
das relações estabelecidas entre Germain Bazin e o Ministério da Educação
(sob o comando de Gustavo Capanema), expõe o constrangimento frente à
pintura sua:
A arte de Portinari parece, à primeira vista, refletir sucessivamente as
últimas modas parisienses [...] É pois em consequência de encontros
(não digo de acasos), tanto quanto de influências, que Portinari nos
parece tão próximo [...] E diante de tanta força plástica, gostaríamos
que a lição de Paris não prevalecesse demais, e que desta nova
visita o pintor brasileiro retivesse o verdadeiro conselho dos mes-
tres: ‘Joga fora meu livro, emancipa-te dele, esquece-me’. Assim
Cândido Portinari poderá ser um dos grandes pintores do século XX
(Chastel, 1946, p. 2 ).
Chastel se referia explicitamente ao contato de Portinari com a pintura
de Picasso, lição que após aprendida seria por ele automatizada. O jovem
Mário Pedrosa, na década de 1930, ao despontar como célebre crítico da segunda
geração moderna, adicionaria mais um constrangimento que, logo aqui formulado,
seria assimilado aos modos do natural. A ideia de um materialismo dialético apli-
cada às artes, embora não fosse um privilégio nosso, no Brasil acharia um terreno
fértil. Em Pintura e Portinari, de 1935, Pedrosa estabelece parâmetros para o
debate entre uma arte dita social e uma outra, de vocação inferior, desinteressada.
A ideia do trabalho de arte como arma sociopolítica, como oposição ao comodismo
burguês, ao mesmo tempo que recrudesceria a brasilidade aspirada, tornaria
ainda mais difícil a ideia de um campo artístico moderno (cf. Chiarelli, 2019).
Em Portinari a cosmética da obra moderna se rendia como nunca ao império
do assunto. A folga de uma finalidade determinante, aquilo que exatamente
conformaria a noção moderna de arte – e aqui moderno tem uma incidência
mais abrangente –, dela entre nós se prescinde em prol de um jornalismo orna-
mental. O fenômeno moderno da experiência estética só poderia ser entendido
como uma face acessória da alienação. Não cabe aqui seguir as múltiplas recon-
siderações pelas quais passou a crítica empreendida por Mário Pedrosa, mas
não é de todo errôneo apontar que o político, ao menos em sua obra, se dobra
constantemente sobre o estético, mas não de modo a com ele interagir, senão
que o ordenar.
Outro aspecto a ser salientado na trajetória de Mário Pedrosa é sua noção
por vezes sincrética de arte. Isto é, a noção antes se quer alargada a fim de que
aquilo por ela nomeado adentre automaticamente o salão nobre da produção
cultural e assim lhe seja conferido um valor afirmativo de diferença. Em Arte,
necessidade vital, conferência apresentada em 1947 no salão do Ministério da
Educação e Saúde na ocasião da exposição dos pacientes do Centro Psiquiá-
trico Nacional, Pedrosa lança mão de uma concepção holística de arte. Entre o
renascimento, a pintura acadêmica, o impressionismo e a arte moderna, o crítico
desenvolve a hipótese de uma marcha teleológica na qual a arte se libertaria
progressivamente da razão reificada em troca de uma liberação pulsional de
forças do inconsciente. O que chama de intelectualismo abstrato, tomado por
ocioso, cederia lugar a um ímpeto expressivo inerente ao próprio homem e personi-
ficado no artista moderno, nas crianças e nos pacientes psiquiátricos. A arte assim deixa de ser um campo privilegiado de atividade da faculdade imaginativa para
se tornar um traço existencial estendido a todo humano. “A vontade de arte se
manifesta em qualquer homem de nossa terra, independente do seu meridiano,
seja ele papua ou cafuzo, brasileiro ou russo, negro ou amarelo, letrado ou iletrado,
equilibrado ou desequilibrado” (Pedrosa, 2015, p. 55)
A unidade dos povos e de suas diferenças se constitui num espaço discur-
sivo comum: a pura criação, o ímpeto das forças subterrâneas que animam os
homens em sua diversidade. Por meio de um psicologismo universalista, Pedrosa
faz incutir no debate brasileiro uma premissa duas vezes contestável: a univer-
salidade da arte, ou seja, sua assimilação como segunda natureza do homem,
que faria eco a uma universalidade do próprio humano, ser cindido entre vetores
coercitivos (racionais-culturais) e pulsionais (naturais-inconscientes). Ora, como
as margens do racional e do ocidental podem ser incluídas ao corpo místico
universal por uma ferramenta tão própria ao modelo opressor de sua expansão
cultural, isto é, como sustentar uma contestação da universalidade racional por
meio de uma reprodução sua mais alargada? O alargamento irrefletido da noção
de arte, a ela pleiteando um estatuto de universalidade humana, despoja o termo
de qualquer precisão.
O fenômeno histórico da arte, tal como conhecido no Ocidente, não se
confunde com a disposição humana de onde provém. Confundir as bases antropo-
lógicas da criação com seus fenômenos historicamente situados é fazer coincidir
forçosamente arte e imaginação, produção e disposição. A sonhada comunidade
humana, o projeto das utopias políticas e sociais, ora alimentados pelo crítico,
extravasam para o campo do artístico numa tentativa panteísta de unidade total. A
universalidade não é uma resolução das diferenças e tampouco difere da prática
autoritária.
A aflição da crítica que, mesmo desesperada em suas boas intenções, não
cessava de constranger a analítica das obras, caminho possível para a formulação
de um campo artístico efetivo, acabava por juntar em coro uma produção cada
vez mais administrada. A noção de obra artística aplicada era de fato moderna:
a obra singular, distinta das demais produções humanas. Mas o aspecto que
a fundara − a polissemia, o empenho ostensivo da faculdade imaginativa, o
trabalho da forma − mantinha-se em distância ou, se aparecia, deveria logo
ser coartado. A democracia, a equidade social, a justeza dos direitos e deveres, que por múltiplas incapacidades nossas nunca chegaram a se constituir efetiva-
mente, apareciam no campo artístico como purgação estética. O artista militante
parece substituir a mobilização social; o tema admoestador é o correlato da
educação republicana; o crítico-ideólogo era quase um estadista das artes.
Documentalismo, apreço pelas agruras sociais, a imposição grandilo-
quente da realidade, ou mesmo incursões pelo popular e primitivo, em vez de
matéria de trabalho para a produção artística, se convertiam em sua determinação;
aquilo que o crítico Ronaldo Brito chamara de domínio do verbo se entrevê na
forma como a pesquisa visual era substituída por um rol de topoi discursivos
viciados. Importante também é sua consideração sobre a “brasilidade”: “Muito
mais um ‘clima’ do que um conceito, quase uma sobredeterminação fantasmá-
tica, ela quase impunha aos nossos artistas aquilo que a modernidade europeia
desde Manet repudiava – o primado do tema, a sujeição da pintura ao assunto”
(Brito, 1983, p. 17). O trauma do moderno, assim chamado por Ronaldo Brito,
traduz-se numa faceta da acachapante tradição não artística que aqui se fizera
regra. Não artística pois não se distinguem nela o político do artístico, o Esta-
do-nação do espaço de produção dos objetos estéticos, e, sobretudo, o esforço
civilizatório da qualidade artística. Importa muito mais a ideia de uma “aclima-
tação” das diretrizes da arte internacional, se assim for possível ainda sustentar
nela o edifício do afirmativo-nacional.
É notório que o problema não se resume a isso, as relações entre os centros
referenciais e as margens no capitalismo tardio são muito mais complexas do que
aqui se acha exposto. Tampouco é inapropriado apontar que a solução oferecida
por essa margem que é a nossa responde de forma mais ou menos previsível ao
problema do sistema-mundo: acompanhar a marcha das tendências adicionando
ao modismo um reclame da lição local – sob o risco de, caso omitido, ser ela
detestável ou ociosa. As bienais e, em especial, concretos e neoconcretos são
um capítulo exitoso de uma tentativa de reversão de tal incipiência.
Qual seria então o engodo da tarefa de uma história da arte entre nós?
Falou-se aqui muito de como a crítica era incipiente ou orientada por intento diverso
daquele de fato artístico. Une-se a isso uma carapaça comemorativa com que
“antigos” e “modernos” revestiram seus discursos sobre arte, mas cabe ainda
enfrentar frontalmente as questões de início postas. Sobre o que de fato seria a
arte brasileira cabe indicar que o empenho de sua criação discursiva e imagética é guiado por uma frustração afirmada. N’Os bestializados, José Murilo de Carvalho
(1987, p. 164) expõe com lucidez o fato de que cidade, república e cidadania
“continuam dissociadas, quando muito perversamente entrelaçadas”. À altura
da finalização de sua pesquisa sobre a cidade do Rio de Janeiro e a República
brasileira no início do século 20, a conclusão do analista em texto de 1987 é que
talvez fosse o caso de repensar a validade do modelo ocidental republicano entre
nós. A jovem República, aviltada por ditaduras, exclusões confessas e revoltas,
não parecia configurar nenhuma solução certeira no decorrer do longo século
20. A civilização brasileira, qual seja o significado disso, era mais um arremedo
discursivo que uma realidade nos termos da cidadania e da equidade. A comu-
nidade política era, se é que ainda não é, uma quimera. Mas por que então um
grupo social tão diverso (em sentidos até mesmo assombrosos) poderia aparecer
com tanta veemência no discurso sobre as artes ou como tema deliberado de
sua produção? A pista para uma resposta é também extraída da análise de
Carvalho (1987, p. 14), quando diz que “os vivos, ao tentar reconstruir o passado,
tentam governar os mortos na ilusão de poderem governar a si próprios. Ou, em
visão pessimista, na frustração de o não poderem fazer”. A arte brasileira surge,
então, como catarse mal-ajambrada de um processo nunca realizado; é como
um desvio de energias vitais na esperança de tornar espetáculo um enredo que
nem sequer existia. A república, que sempre expurgou de si e de seu corpo
inviolado o popular, o povo, sua diversidade, encontra o conforto numa arte que
os recoloque ali domesticados, adocicados. A história de uma tal produção, que
deveria se ater ao complexo universo de produção, ao incipiente modo de socia-
lização e formulação do campo artístico, assumia também os tons de uma fábula
verde-amarela.
Não são poucas as estórias edificantes, a confusão estabelecida entre
estruturas sociopolíticas e o universo das artes – cabe citar, por exemplo, a reifi-
cação de um termo geopolítico tal qual América Latina para construir a falaciosa
arte latino-americana. Ou muito se alimenta um contínuo recrudescimento da
ideia estável de uma nação, que só bem serviria a populismos e totalitarismos
perversos, ou dela se aproveita para triunfar nas malhas do mercado interna-
cional de arte ao sabor do exótico. Deveras interessante seria levar a aposta de
Carvalho um pouco adiante. Se o estabelecimento do modelo político-civilizacional
ocidental não teve sucesso entre nós, isto é, se sua implantação parecia ainda muito atamancada, não seria de todo temerário impor à produção artística um modelo
aglutinador-interpretativo que nem de longe nos era familiar? O que equivale à
pergunta: como uma nação que nem sequer cumpre os requisitos do Estado
moderno ocidental, enquanto comunidade político-social, haveria de requerer
uma arte nacional? É como se entre nós a arte nacional, brasileira, surgisse antes
mesmo do próprio Brasil, que não deixa de ser ainda uma promessa. E nada disso
aqui se assemelha a uma bildung,
6 visto que exclusão e marginalização foram a
marca célebre de nosso percurso republicano – e, ressalte-se, a não socialização
o traço preponderante de nossa tradição artística.
Vejamos, então, um exemplo de como opera nossa tradição historiográfica.
O exemplo é extraído do prefácio de Walter Zanine (1983, p. 14) a seu compilado
História geral da arte no Brasil:
A arte, uma das formas que melhor tem definido o caráter das civilizações,
síntese de expressão e comunicação, revela-se no Brasil por múltiplos
aspectos, desde os que pertencem profundamente ao quadro da cultura
ocidental até aqueles em que se manifesta o espírito indígena ou em
que ocorre o sincretismo afro-brasileiro, e é esta complexidade que o
estudo procura abranger em suas linhas mais gerais.
O trecho basta para que o intento se aclare. Ainda que o trabalho seja
louvável, ele não deixa de ser ordenado por uma diretriz um tanto controversa:
a arte se resumiria a uma das maneiras, talvez a mais privilegiada, de definir o
caráter de uma sintética civilização brasileira. No fundo, esse coro de civilizações
nunca havia alcançado nenhuma polifonia. A arte transmutara-se em puro
sincretismo entre expressões e comunicações diversas; isto é, tornava-se um
termo vazio de significado, se comparado à posição por ela ocupada no quadro
geral da cultura ocidental, ao mesmo tempo em que aqui assumia a tarefa aglu-
tinadora de formular um Brasil. Mais que reduzir o artístico a uma dimensão de
“prática social”, como fizera o materialismo histórico, ao que aqui assistimos é sua plena indistinção ao campo geral das expressões culturais. Mas não que isso
fosse fruto de uma contestação de diretrizes ocidentais decrépitas, tampouco
parecia ser o imperativo dum levante consciente... A própria insistência no “Brasil”
como elemento aglutinador depõe o contrário. Afinal, qual Brasil? A unidade
republicana mal-assimilada?7
O que até então aqui fora apresentado nos permite formular a suposição de
que o campo artístico entre nós tinha como principal adversário de sua consti-
tuição a própria inespecificidade do entendimento da arte. Em especial, ao que
tudo indica, inscrever sua existência em um campo operativo próprio aparentava
soar como uma nova rotura para com as diretrizes sociopolíticas sustentadas
pela intelectualidade brasileira. Crítica e, por inúmeras vezes, produção pareciam
coagidas a sustentar aspirações externas ao próprio universo artístico. Ou seja,
não pela conversão de valores e dados da realidade em substrato para o artístico,
mas na forma de uma agenda incutida de fora para dentro. Aquilo que para
Lorenzo Mammì surgiria com resposta aos impasses estabelecidos entre a ideia
do fim da arte e o apogeu da comunicação de massa desde os anos 1970 pode
se configurar como um traço fundamental das respostas de nossa tradição:
a de conferir à arte conteúdos elaborados fora dela. Minorias culturais,
políticas e sexuais reivindicam um acesso à arte como a um salão nobre
da comunicação. Nesse caso, a arte já não é vista como um fim ou
como um meio, mas como sinal de status. Regride à função pré-renascen-
tista de carregar questões, sem ser, ela mesma, uma questão (Mammì,
2012, p. 14).
Se desde Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Mário Pedrosa, Quirino
Campofiorito, Mário Barata e Lourival Gomes Machado já podemos notar um
campo crítico-historiográfico estabelecido no Brasil – ressalte-se, crítico-histo-
riográfico pela ambição dos autores em operar, em maior ou menor grau, nos
dois campos simultaneamente –, ainda que de posições às vezes quase contrárias,
todos se engajaram no recrudescimento da chave interpretativa de uma arte brasileira. A qualidade daquilo que se tomava por artístico era sobremaneira encon-
trada numa espécie de fantasma conceitual do nacional. O que poderia ser apenas
sintoma de um provincianismo, ou de um jogo regido por regras a nós alheias, é
em grande parte refutável pela circulação ativa de intelectuais e artistas desde os
primórdios do século 20 no círculos da arte internacional. Tal trânsito seria ainda
mais intenso após o labor do Ministério da Educação e Saúde de Capanema e,
especialmente, pelo boom institucional ocorrido durante a década de 1940.8
A indistinção entre trabalho crítico e historiográfico entre nós era especial-
mente fomentada pela quase escassez de posições acadêmicas para o ensino da
história da arte até meados do século 20. Distinto do que acontecera no universo
francês, o crítico da tribuna jornalística não se contrapunha ao homo academicus,
pois aqui esse ainda nem sequer existia – tenha-se em vista que as cadeiras
para o ensino formal de história da arte no Brasil ainda eram uma raridade até
os anos 1950, sendo uma exceção o caso da Escola Nacional de Belas Artes.
Destarte, já não poderíamos aqui sustentar que houvesse uma dissociação do
trabalho da crítica daquele de intento propriamente historiográfico. Ambas possuem
entre nós uma raiz comum: não chegam a se tornar discursos opositivos; quando
muito diferem na extensão dos enunciados. Se crítica e historiografia desde seus
primórdios intentam inscrever a produção visual brasileira na geografia de um
conceito de arte que é ocidental, não parece muito acertado que a instauração
do paradigma da nacionalidade pretenda criar uma dissonância para com ele,
quando apenas parece reificá-lo segundo um paradigma arbitrário.
A confusão entre expressões culturais e o objeto de arte, ao que tudo
indica, encaminhou nossa produção discursiva para uma compreensão da arte
como status dado aos objetos de cultura e a seus produtores, na esperança de
com isso alcançar uma resolução no mundo social. Seu aglutinante é a dimensão
discursiva de um Estado-nação, pigmentada por agruras, projetos e aspirações.
A arte deixa então de ter espessura própria e passa a ser entendida como um
sistema de objetos que revela a resistência inventiva de um povo ou a projeção
de um corpo unitário que, convenhamos, nem sequer existia.
O retorno ao que Mammì chama de função pré-renascentista nem sequer
pode ser um retorno, pois que aqui se convertera logo de início em mote orde-
nador de uma tradição discursiva inteira: de Porto-Alegre a Pedrosa, o artístico
se converte em massa de manobra para formulação de um Brasil, para contes-
tação de um status quo e, sobretudo, palco para afirmação antidemonstrativa.
O artístico despoja-se de um valor específico, converte-se em panteísmo, numa
indistinção completa. Tal fato ressoa numa tradição historiográfica que entende a
arte como um valor universal e imanente, capaz de ser encontrado em tudo e
qualquer coisa. Uma história da arte facilmente se vê convertida aí em caderno
de cultura geral, e os historiadores e críticos que tentam dessa celeuma se
desvencilhar são, por vezes, tachados de formalistas, quando não de reacionários.9
Talvez o que aqui colocamos em relevo faça coro ao diagnóstico elaborado
por Luiz Costa Lima, que é quem chama atenção ao que via como traço dominante
de nossa tradição intelectual: a auditividade. Tal aspecto denuncia a predominância
de uma diretriz cara à oralidade em uma cultura que se pretende escrita. Mais
precisamente, “significa que, no caso, a palavra é escolhida e a frase composta de
maneira a suscitar um efeito que se quer o mais imediato possível” (Costa Lima,
1981, p. 16). Arte brasileira em suas distintas, mas nem tão diversas, formulações
parece ser um indício dessa auditividade. Nessa esteira, a função da historiografia
converte-se numa prática descritiva capaz de implementar os impropérios mais
acabrunhados não porque nela se exerce um trabalho meticuloso da demons-
tração analítica, mas porque converte problemas complexos em formulações
facilitadas – ou facilmente aceitas. A recusa ao compartilhamento conflituoso
com o substrato ocidental, a especificidade extravagante intermitentemente
ressaltada são algumas das formas de tamponar problemas complexos com
soluções peremptórias; arte, assim, é antes cultura, e o Brasil o preceito sobre
um lugar imaginado. Sem definir o que quer que seja o artístico e sem dizer o que
seria um tal Brasil, constrói-se a arte brasileira. Uma resolução fundada sobre
duas questões que ainda aguardam formulações mais consistentes.