Contexto e visão geral

O período aqui enfocado testemunhou uma série de modificações profundas na sociedade grega. Partindo de um conglomerado de tribos rurais independentes e frequentemente em guerra entre si, os genos, cujo único elo comum era a língua e a religião, e cuja cultura, dissolvida na Idade das Trevas, começava a ressurgir, os gregos encaminharam-se gradualmente para um modelo de vida urbano, constituindo-se as pólis, dominadas primeiro por uma aristocracia latifundiária, e depois por uma elite de políticos e comerciantes, dentro de uma moldura social mais ou menos democrática, na qual, porém, só tinham voz ativa os detentores do atributo da cidadania, permanecendo estrangeiros e escravos à margem dos processos decisórios, ainda que não dos produtivos e sociais. Esse modelo se difundiu, em sucessivas ondas de colonização, por toda orla do mar Mediterrâneo e trechos do mar Negro. Mais adiante, enfraquecida por guerras internas, a Grécia sofreu o domínio macedônio e posteriormente o romano, extinguindo-se como sociedade independente.

Ao longo desta história, desde cedo surgiu entre eles um desejo, de índole racionalista, por um conhecimento mais completo do mundo e do homem. Em vista disso desenvolveram-se diversas ciências, como a matemática, a biologia, a medicina, a geometria, a astronomia, a ciência política, a óptica, a geografia, a filosofia, a etnografia, a historiografia, e lançaram-se os fundamentos da psicologia e da psiquiatria. E para disseminar todo esse novo conhecimento, desenvolveu-se também um modelo educativo de largo escopo, conhecido como paideia, consolidado no período clássico, que objetivava a educação integral do indivíduo para o perfeito domínio de si, para o exercício pleno da cidadania e para o desfrute de uma vida mais rica, saudável, harmoniosa e significativa.[2][3]

Naturalmente, a arte produzida nesse continuum de transformações refletiu-as de variadas maneiras, tanto em termos de estilo quanto de significado e função. Permaneceram mais ou menos constantes, porém, alguns traços comuns, regidos pelo conceito básico da kalokagathia, o qual associava a beleza com as virtudes morais, religiosas e cívicas. A arte não era vista como uma atividade meramente decorativa, mas engajava-se profundamente, como disse Andrew Stewart, na construção e transformação da sociedade e na consagração de ideologias específicas. Por isso, estava sujeita a uma série de convenções que impunham ao artista a criação de produtos socialmente significantes, capazes de, atendendo às formulações da kalokagathia, ao mesmo tempo adornar as cidades mas acima de tudo servir como modelos educativos.[4][5] Sequer havia naquele tempo uma palavra para designar arte como hoje a entendemos — uma atividade livre de compromissos e nascida em grande medida da criatividade e da iniciativa individuais do artista —, mas falava-se em techné, um termo de difícil tradução que equivale aproximadamente a técnica, habilidade ou tecnologia, que tinha conotações práticas e racionais e que podia se aplicar a qualquer atividade sujeita a regras e passível de aprendizado.[4][6] A poesia, por exemplo, naqueles tempos não era considerada uma "tecnhé", pois se acreditava que era fruto direto da inspiração divina.[6]

Assim, a arte grega foi essencialmente uma criação urbana, de características funcionais e de fundo moral, sagrado e/ou político, que elevou o homem a uma condição exaltada. Boa parte do que se criou foi encomendado pelo Estado — era destinado ao culto, ou era concebido como monumento público, celebrando heróis, atletas e outras figuras por algum motivo notáveis e exemplares. Outras obras perenizavam episódios mitológicos e conquistas coletivas, como eventos históricos importantes ou os sucessos militares recentes, ou declaravam a superioridade cultural dos gregos sobre outros povos, segundo a sua própria visão. Isso, mais a concepção da arte como um instrumento pedagógico, fez com que muito da arte grega tivesse características idealistas e formas austeras, equilibradas e nobres, ao mesmo tempo em que mantinha contato com a realidade concreta através de um concomitante interesse pela representação naturalista, uma tendência cristalizada no período clássico. A associação clássica de idealismo e naturalismo criou uma síntese original de duradoura influência sobre a posteridade do ocidente.

No período seguinte, chamado helenístico, opera-se a transformação mais radical na arte grega, que até então, a despeito de várias mudanças formais, permanecera bastante homogênea e constante em seus propósitos e funções essenciais. O período inicia com a conquista da Grécia pelo macedônio Alexandre Magno e acompanha a construção — e também a queda — do seu império. Admirador dos gregos e sua cultura, levou os princípios de sua arte às regiões que conquistou, chegando à Índia e ao Egito. Foi uma fase de internacionalização cultural, e também de abertura para novas referências, de mudança na própria visão de mundo. Absorvendo influências de várias regiões, a arte se torna mais eclética, dramática, sofisticada, cosmopolita, passando a função pública para um lugar secundário, e emergindo os interesses individuais ao primeiro plano. O ideal antigo, que procurava mostrar ao homem o semideus que ele deveria ser, deu lugar ao prosaico, ao simplesmente humano, e mesmo ao feio e ao decadente, e os olhos da sociedade se voltavam para o mundo concreto, seus prazeres e suas imperfeições. Mesmo as representações dos deuses sofreram humanização, embora fosse a área mais resistente a mudanças. O programa da paideia também se transformava, passando a privilegiar os aspectos puramente culturais da educação, em detrimento dos morais. A tendência secularizante e internacionalizante não impediu que sobrevivessem várias escolas regionais arcaizantes e classicistas em atividade ao longo do helenismo, sendo especialmente apreciadas em Roma, que neste período se tornava o mais ávido mercado consumidor de obras gregas, seja em originais, seja em cópias e derivações, chegando a valer fortunas. O historicismo e o gosto pela releitura erudita de originais gregos consagrados estavam entre os traços mais constantes na cultura romana. Se antes a referência grega já havia impregnado profundamente a cultura etrusca e chegara aos confins do Oriente com Alexandre, agora passava a constituir parte principal na consolidação da cultura de Roma. Em breve os romanos sobrepujariam os macedônios e assumiriam o comando da Grécia, absorvendo ainda mais profundamente suas referências. A partir de Roma a arte grega seria traduzida — e mil vezes retraduzida, com variados graus de fidelidade — para grande parte da Europa, Oriente Próximo e norte da África. Apesar desta disseminação em larga escala, quando o cristianismo ganhou poder a memória da religião pagã foi proscrita como diabólica e enganosa, e o nu, de tão assídua presença na arte grega, foi condenado como imoral. Juntos, mais mudanças nos gostos estéticos e no entendimento das funções da arte, esses fatores desencadearam uma onda iconoclasta avassaladora, e ao longo da Idade Média a maioria dos originais da arte grega se perdeu ou foi destruída.[9][10][11]